A Missão Austro-Bávara no Brasil

A Europa no século XIX trilhou caminhos para o avanço do conhecimento científico, pois a necessidade de compreender os espaços, os grupos sociais e os aspectos ambientais e culturais de uma sociedade tomavam cada vez mais corpo. No entanto, havia um lugar no Novo Mundo, entre muitos outros, que não havia sido amplamente desbravado com rigor científico e que conquistou a sua atenção, especialmente dos povos germânicos: o Brasil.

A princípio, desde a vinda dos portugueses para o novo continente no século XVI, o Brasil adquiriu o status de colônia e as atividades econômicas estabelecidas, ao longo do tempo, buscavam atender às necessidades da metrópole. Isso dava-se sobretudo pela exploração das riquezas naturais da terra por meio da agricultura e, tempos depois, a extração mineral, como ouro e diamantes. Assim, Portugal foi se desenvolvendo e a expressividade do seu crescimento angariou ainda mais o interesse dos outros países europeus.

Esse interesse se manifestou concretamente durante o Congresso de Viena, em 1815. Os germânicos (sobretudo os austríacos) e os portugueses tiveram aí a oportunidade de desenvolver relações e acordos políticos mutuamente benéficos. Uma das maiores conquistas obtidas foi o casamento dinástico, firmado em 1816, entre os filhos dos imperadores: a arquiduquesa D. Leopoldina Habsburgo e o príncipe Pedro de Alcântara. Como parte do acordo matrimonial, estabeleceu-se que uma grande comitiva acompanharia a princesa na viagem. Ela era composta por cientistas austro-bávaros (e alguns russos) de diversas áreas do conhecimento: naturalistas, botânicos, paisagistas, zoólogos, antropólogos, pintores, taxidermistas e médicos.

É importante estabelecer que os povos germânicos não conheciam propriamente as riquezas naturais do Brasil e o sonho de desvendá-las, nesse momento, estava ao seu alcance. E esse foi o propósito da missão: desbravar o país, coletar materiais diversos, registrar as informações obtidas e encaminhá-las à Europa. Ademais, muito embora o nome “austríaco” seja recorrente devido à cadeia de comando estabelecida pelo diretor Carl Schreibers, os membros da comitiva mais conhecidos pelos resultados de seus trabalhos são os bávaros Johann Baptist von Spix (zoólogo) e Carl Friedrich von Martius (médico, botânico e antropólogo). Eles chegaram ao Brasil em 1817 e logo deram início às atividades da missão.


von Martius e von Spix


Os trabalhos começaram nas proximidades da Fazenda de Santa Cruz, onde colheram plantas, estudaram animais, fizeram desenhos paisagísticos e taxidermia. Inicialmente, eles contaram com o apoio e envolvimento da princesa Leopoldina na coleta dos materiais, tendo em vista sua inclinação aos estudos de mineralogia e botânica desde a infância.

Litogravura da ave Carcará


Após o período na capital, os membros da comitiva avançaram para a província de São Paulo, onde percorreram diversas cidades, como Mogi das Cruzes e Pindamonhangaba. O seu objetivo principal era chegar à Amazônia, mas durante o percurso pretendiam explorar o máximo de lugares que conseguissem. Além disso, conforme expôs a historiadora Claudia T. Witte, a comitiva utilizou algumas rotas que os bandeirantes fizeram ao longo de suas explorações pelo país, e estes utilizaram os trajetos, muito antes, já feitos pelos povos indígenas da região.

Trajeto da viagem pelo Brasil


Após percorrerem a província paulista, eles chegaram em Minas Gerais. Lá decidiram cortar caminho adentrando áreas sertanejas, mas logo recuaram devido às altas temperaturas e falta de mantimentos necessários. Assim a comitiva refez o caminho a leste em direção ao norte: passaram por várias províncias nordestinas até finalmente alcançar a Amazônia. Durante as expedições, empenharam-se em registrar as experiências que tiveram ao longo da jornada, desde as características da fauna e flora até as atividades dos vários grupos encontrados nas diferentes regiões das províncias descrevendo: suas organizações, seus hábitos e suas músicas típicas.

Litogravuras da planta Aguapé


Após anos de pesquisa, von Martius e von Spix regressaram à Europa, em 1821, com todo o material organizado. Eles decidiram publicar conjuntamente os relatos das viagens que rendeu a trilogia nomeada de “Viagens ao Brasil” e que foi traduzida para diversas línguas.

Individualmente, von Spix publicou mais de nove livros sobre a fauna brasileira, catalogando diversas espécies até então não estudadas. Von Martius, por sua vez, compilou os estudos que desenvolveu em uma série extensa de mais de 40 volumes chamado de “Flora Brasiliense” que foi publicada em 1846. Essa obra contemplou não somente os aspectos básicos da flora, mas introduziu também princípios pioneiros de ecologia. Além disso, ele organizou em obras etnográficas as anotações obtidas ao observar os povos indígenas, escravos e homens livres.

Índios Miranha, Muxuruna e Iuri


Mesmo com o regresso de von Spix e von Martius, as pesquisas continuaram com os outros membros, principalmente com o naturalista austríaco, Johann Natterer, que seguiu trajetos não desbravados por seus colegas. Ele adentrou a região oeste, passou pelas províncias de Goiás e Mato Grosso, depois seguiu as áreas sertanejas do norte, desbravando o Grão-Pará até alcançar a fronteira com a Venezuela. Suas atividades mais notáveis foram as coletas de diversos artefatos de história natural.

Contudo, no ano de 1826, após a morte da Imperatriz Leopoldina, as expedições perderam o incentivo governamental, e somente em 1838 elas retornaram. Anos depois, contaram com amplo investimento de D. Pedro II – entusiasta das ciências, tal como sua mãe – que incorporou a participação de brasileiros nos estudos. A missão findou-se definitivamente em 1909 por falta de incentivo, dessa vez, da Áustria (AMBIEL, 2013).

Na Europa, houve grandes condecorações e homenagens nos meios acadêmicos para os cientistas envolvidos. Também deve-se recordar a criação do “Museu Brasileiro,” em Viena, no segmento etnológico e histórico-natural, onde colocaram em ampla exposição as principais descobertas das expedições no Brasil.

Assim, a Missão Austro-bávara foi bem sucedida: os resultados de quase cem anos de pesquisas reverberam até os dias de hoje como a maior expedição científica já feita em território nacional, sendo motivo de orgulho para a história brasileira e dos germânicos.


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Por Samuel Santos


Estudante de Licenciatura em História pela Universidade Paulista. Escreve sobre História do Brasil, Geral e Micro-História.

Referências

AMBIEL, Valdirene do Carmo. Estudos de Arqueologia Forense Aplicados aos Remanescentes Humanos dos Primeiros Imperadores do Brasil Depositados no Monumento à Independência: Dissertação Revisada. Orientador: Prof. Dr. Astolfo Gomes de Mello Araújo. 2013. Dissertação (Mestrado em Arqueologia Forense) - Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, São Paulo - SP, 2013.


MELO SANTOS, Rita de Cássia. Sobre crânios, idiomas e artefatos indígenas: o colecionismo e a História Natural na viagem de Johann Natterer ao Brasil (1817-1835). Dossiê. vol. 21, núm. 1, pp. 10-26, 2018. ed. Revista de Ciências Sociais: Sociedade e Cultura: Universidade Federal de Goiás, 26 out. 2018. Disponível em: https://www.redalyc.org/jatsRepo/703/70357646001/html/index.html. Acesso em: 17 maio 2021.


MENCK, José Theodoro Mascarenhas. D. Leopoldina Imperatriz e Maria do Brasil: Obra comemorativa dos 200 anos da vinda de D. Leopoldina para o Brasil. Brasília - Distrito Federal. Ed. Câmara dos Deputados, 2017.


REZZUTTI, Paulo et al. D. Leopoldina: A história não contada: A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. Ed. LeYa - São Paulo, 2017.


SPIX e Martius descobrindo o Brasil no século XIX. Direção: Paulo Rezzutti. Gravação de Claudia T. Witte. YouTube: [s. n.], 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ixRFknHlIHM&t=1710s. Acesso em: 1 maio 2021.


VON SPIX, Johann Baptist; VON MARTIUS, Carl Friedrich. Viagem ao Brasil: 1817 (vol. 1,2 e 3). [S. l.]: Senado Federal, 2017.

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