A pena foi mais forte que a espada: a diplomacia e a formação do Estado brasileiro

Atualizado: 8 de Mai de 2021

A diplomacia brasileira goza de grande prestígio nos debates acadêmicos nacionais e internacionais. Para além de sua notória tradição na condução dos negócios internacionais do país, o Ministério das Relações Exteriores possui um corpo diplomático profissionalizado e especializado, cuja formação é garantida pelo Instituto Rio Branco. A excelência burocrática do órgão foi pilar fundamental no processo de formação do Estado Nacional, o que lhe permitiu a continuidade de muitas diretrizes da política externa, mesmo em situações de ruptura.

Em sua obra Economia e Sociedade, Max Weber considera a burocracia sob o ponto de vista da teoria da ação: ela produz um modo de pensar, ou uma conduta própria, que estrutura a forma de ver o mundo segundo seus próprios critérios – o que ele chamou de ethos racional. O tipo ideal de burocracia funciona por meio de processos e mecanismos de controle que visam garantir o máximo de isenção, objetividade e de respeito às leis.

Essa análise weberiana ganha ainda mais destaque quando aplicada à história da diplomacia brasileira. O insulamento institucional do Ministério viabilizou a estabilidade necessária para manter certa continuidade na política externa ao longo do tempo. Nesse sentido, mudanças no regime político e nos modelos de desenvolvimento econômico não modificaram fundamentalmente os princípios sob os quais o pensamento diplomático brasileiro se baseia, pelo menos, desde o Barão do Rio Branco.

O Brasil é um dos países que mais benefícios retirou de sua diplomacia: consolidamos a ocupação portuguesa do território em zonas estratégicas mediante tratados; com relativa rapidez nossa independência foi reconhecida; temos mais de 16 mil quilômetros de fronteiras com dez países vizinhos, que ainda hoje possuem pendências entre si, mas com os quais convivemos pacificamente desde 1870; essas dimensões continentais do país foram definidas por meio de negociações, sem terem despertado ressentimentos regionais; somos internacionalmente reconhecidos como um importante ator nas relações internacionais, de modo que nossa posição em debates multilaterais carrega certa relevância.

Não há dúvidas de que a diplomacia brasileira dispõe, historicamente, de ideias que sustentam sua atuação internacional. Podemos citar como exemplo a adesão incondicional ao direito internacional, o não recurso ao uso da força na solução de disputas entre Estados, o respeito à autodeterminação dos povos, a observância dos direitos humanos, a busca pelo desenvolvimento nacional e a cooperação bilateral e multilateral. Ainda que não se possa dizer que essas ideias sejam essencialmente brasileiras, elas são elementos constitutivos da ação diplomática do país. Eventualmente adaptadas às suas necessidades específicas e às circunstâncias que presidiram a tomada de decisão em relação ao desafio em causa, essas ideias germinaram das mentes de seus líderes políticos, dirigentes estatais, intelectuais e os membros da elite, de forma geral. Todos os agentes partícipes da consolidação do Estado Nacional souberam combinar as virtudes dos soldados e dos diplomatas para atingir os objetivos que tinham sido definidos como correspondendo aos interesses nacionais permanentes e, por isso, merecem a alcunha de verdadeiros estadistas.


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Por Caio Albuquerque Di Carlantonio


Analista internacional graduado pela Universidade Veiga de Almeida. Eterno estudante e um grande entusiasta dos assuntos de filosofia política, política internacional e história diplomática do Brasil.

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