A Vida de Napoleão Bonaparte – Parte 1: Ascensão

Atualizado: 21 de jul. de 2021

Introdução

Em 5 de maio de 1821, morreu Napoleão Bonaparte. Não é de se espantar que o bicentenário de sua morte seja marcado por uma espécie de “re-interesse” por este importante personagem, seja nos noticiários, nas conversas ou mesmo nas provas de concursos.


Para aproveitar o “timing”, decidi fazer uma série de textos narrando a vida desta figura, ora amada, ora odiada, mas certamente ímpar. Os adjetivos para descrevê-lo variam dependendo de quem conta a história, indo de “Salvador da Revolução” a “déspota sanguinário” (com o bom, velho e anacrônico “proto-Hitler” não falhando em aparecer).


Apesar dos eventuais juízos de valor, Napoleão foi um divisor de águas na história do mundo, alterando o rumo dos eventos do Brasil à Ásia. Esta afirmação vai além da questão militar ou política: o pensamento Europeu jamais seria o mesmo. A própria estruturação da “ciência militar” como a conhecemos deve suas origens ao “fenômeno napoleônico”. Para além da teoria, Napoleão foi transformado até mesmo em referência cultural, aparecendo no hino da Polônia ou como personagem literário em “Guerra e Paz”.


Não obstante sua importância, pouco se aprende sobre como de fato foram a vida e os atos concretos de Napoleão, o homem de carne e osso. É isto que iremos explorar por aqui. Este texto vai de sua infância na Córsega à sua indicação como comandante do Exército da Itália.


Mesmo Imperadores precisam começar em algum lugar. Este retrato incompleto feito por Girodet é a metáfora perfeita


Infância

Em 15 de agosto de 1769, nascia em Ajaccio, Córsega, um menino chamado Napoleone di Buonaparte. Como o nome bem mostra, não é possível esconder sua herança italiana – o próprio sobrenome “Buonaparte” sendo originário de Florença.


As ligações com a Itália não causam surpresa: de fato, a Córsega foi durante séculos um domínio da República de Gênova, que governava a ilha com mão frouxa. O que espanta é a série de eventos que conectaram o futuro Imperador à França.


Em 1755, o líder corso Pasquale Paoli declarou a ilha uma república independente. Gênova, vendo que seria necessário lutar para retomar o território, preferiu vendê-lo ao rei Luís XV e deixar para os franceses o trabalho de pacificar o local. Esta venda aconteceu em janeiro de 1768, ou seja, pouco tempo antes do nascimento de Napoleão.


Tanto Carlo Buonaparte, o patriarca da família, quanto sua esposa Letícia eram apoiadores de Paoli. Entretanto Carlo era um homem mais pragmático que idealista, logo jurando lealdade a Luís XV quando a Córsega mudou para mãos francesas. Com essa mudança de time, Carlo pôde manter seus cargos na administração civil, inclusive tornando-se, no ano de 1777, o representante da nobreza corsa junto a Paris. Com o reconhecimento do status de nobreza da família, em 1771, os Buonaparte entraram para a aristocracia local.


A “Maison Bonaparte” em Ajaccio, Córsega. Pode-se ver que os Buonaparte tinham uma vida confortável


Quanto a filhos, Napoleão foi o segundo dentre os que sobreviveram à infância. O primogênito da família era Joseph, nascido em 1768. Os mais novos eram Lucien (1775), Elisa (1777), Louis (1778), Pauline (1780), Caroline (1782) e Jérôme (1784). Evidentemente, estas são as versões galicizadas de seus nomes de batismo.


Ainda na questão do galicismo, cabe aqui uma curiosidade: a língua materna de Napoleão era o corso, um dialeto que lembrava o genovês. Alfabetizado em italiano, só aprendeu francês por volta dos 10 anos de idade, mas falando durante toda sua vida com um forte sotaque. Este aspecto linguístico está inserido dentro de um contexto muito maior: durante boa parte de sua vida, Napoleão via-se muito mais como corso que como francês, tomando, portanto, um interesse maior nas questões de Ajaccio que nas de Paris.


Em termos de estudos, Napoleão foi uma criança bastante precoce. Sua mãe uma vez disse que ele:


“Não participa das diversões comuns às crianças de mesma idade, preferindo ficar em uma sala no terceiro andar da casa, onde lê constantemente, principalmente sobre história”.

Napoleão logo ficou fascinado pela vida e aventuras dos homens que chamava de “grandes capitães”: Alexandre, o Grande, Júlio César, Gustavo Adolfo, Frederico II, etc. Também era um fã dos temas da Antiguidade Clássica, ao ponto de podermos supor que sua futura mania de posar para pinturas com a mão dentro do colete provavelmente fosse uma imitação da forma como os romanos usavam suas togas.


A família, entretanto, não era rica, e pagar a educação dos filhos do próprio bolso estava começando a apertar as finanças domésticas. Devido a isso, Carlo Buonaparte decidiu solicitar uma bolsa real, cujo objetivo era financiar a educação de jovens nobres, mas sem recursos. De todos os requisitos exigidos, Napoleão não cumpria apenas um: saber ler e escrever em francês. Para consertar este problema, Carlo enviou o jovem para a França, a fim que o garoto começasse um curso rigoroso de francês.


Educação

Napoleão começou sua vida estudantil em Autun, ingressando no seminário eclesiástico em janeiro de 1779. Oito anos se passariam antes que ele voltasse à Córsega. Após completar suas lições de francês no seminário em abril de 1779 – o que foi feito em tempo assustadoramente rápido, a ponto de impressionar o abade diretor da escola – Napoleão foi admitido na Escola Militar de Brienne.


A Escola Militar de Brienne hoje é um museu dedicado a Napoleão Bonaparte


Esta escola não era das mais prestigiadas da França, mas Napoleão ali recebeu uma boa educação, que incluía matemática, línguas, fortificações e até aulas de dança. Embora militar no nome, a escola era administrada por religiosos franciscanos, com a parte militar sendo ministrada por instrutores externos. O talento de Napoleão para matemática e geografia era fora da curva, mas o jovem sofreu bastante para passar nas matérias de alemão e latim, jamais dominando nenhuma das duas línguas. O garoto também era fascinado por história, sobretudo militar, preferindo se fechar na leitura de Plutarco e Políbio a se enturmar com os colegas. Literatura também era um interesse do futuro militar, que idolatrava Rousseau.


“A Sombra do Jovem Bonaparte em Brienne”


“Se enturmar” não era um ponto forte de Napoleão, frequentemente ridicularizado pelos colegas por sua origem corsa, sua “nobreza recente” (e que precisou ser provada), sua pobreza quando comparado aos colegas e até por ser um tanto feio. De todos os insultos, os que mais doíam eram os pertinentes à Córsega, despertando um profundo nacionalismo corso no jovem Napoleão, levando-o a nutrir grande apreço pelo revolucionário Paoli.


Napoleão acabou seus estudos em Brienne em setembro de 1784, aos 15 anos. Logo depois, foi admitido na Escola Militar de Paris, dando início à sua carreira militar.


Desenho de Horace Vernet sobre a lendária “Batalha das Bolas de Neve”. Dada a impopularidade de Napoleão junto aos colegas, podemos entender “lendária” no sentido literal: o relato é pura fabricação


Formação Militar

A Escola Militar de Paris, cuja estrutura existe até hoje, era uma instituição socialmente prestigiada. Nela, Napoleão continuou seus estudos, sendo o primeiro corso a ali ingressar. Seus tutores incluíam figuras notórias, como Gaspar Monge, Louis Domairon e Pierre-Simon Laplace (com quem Bonaparte manteve correspondência ao longo de toda sua vida).


Napoleão Bonaparte foi o primeiro corso a se graduar na Escola Militar de Paris, completando o curso em apenas um ano


Além do prestígio já existente na Escola Militar, Napoleão conseguiu entrar para a elite da elite: seus talentos matemáticos – que surpreenderam o próprio Laplace – garantiram ao cadete um lugar na Arma de Artilharia, a mais concorrida do exército. A fama da Arma não era sem motivo: as doutrinas e equipamentos introduzidos por Jean-Baptiste de Gribeauval revolucionaram a artilharia francesa, tornando-a uma força considerável. Estas mudanças foram motivadas pela derrota na Guerra dos Sete Anos, mostrando como um revés militar pode ser transformado em combustível para melhora. Na Escola, Napoleão também foi apresentado aos “teóricos da Guerra”, rapidamente convencendo-se da importância do moral – o famoso esprit de corps – como fator primordial no desempenho dos exércitos.


O Sistema Gribeauval, utilizado pela mais prestigiada das Armas francesas: a Artilharia. Este sistema ajudou a obter vitórias durante as Guerras Revolucionárias e Napoleônicas


Nem tudo, porém, eram flores, pois em fevereiro de 1785 faleceu Carlo Buonaparte. Napoleão, embora fosse o segundo filho, era claramente o mais apto e logo se estabeleceu como o novo chefe da família, passando a mandar o excedente de seu soldo de volta para casa, a fim de ajudar os custos da mãe viúva. O aperto financeiro também acelerou os estudos do jovem, que se formou em um ano, em oposto aos dois geralmente exigidos.


Com esta graduação antecipada, em setembro de 1785, Napoleão recebeu a patente de segundo tenente e foi alocado como oficial de artilharia no Regimento La Fère, em Valence. Mal havia completado 16 anos.


Início de carreira

A verdade é que, nesta época, Napoleão estava financeiramente quebrado, e precisava se preocupar com problemas bem mais mundanos do que os usualmente associados ao futuro Imperador. Seu pai deixou pesadas dívidas ao falecer, e Napoleão – que vivia praticamente da caridade alheia – precisou pedir licença do regimento para colocar as coisas em ordem.


Seu pensamento estava 100% na Córsega: para além das questões financeiras da família, havia também a situação política da ilha. Vários escritos de Napoleão mostram que o jovem continuava um fã de Paoli e defendia a independência corsa. Em setembro de 1786, decidiu voltar para sua ilha natal – a primeira de uma série de viagens entre 1786 e 1793. Estas viagens significavam que Napoleão passava a maior parte do tempo afastado de seu posto, o que não era algo raro para os oficiais da época, mas que certamente prejudicava seus prospectos profissionais. Entretanto, como pode ser visto pela cronologia, aproximava-se um evento que transformaria as carreiras de muitas pessoas.


Revolução

A data tradicionalmente aceita como o marco da Revolução Francesa é 14 de julho de 1789, dia da famosa “Tomada da Bastilha”. Os ventos revolucionários, entretanto, já sopravam há muito tempo. Para alguém que sabia da insatisfação popular e dos motins no exército, Napoleão foi pouco perspicaz ao julgar o tamanho dos acontecimentos, declarando em uma carta que


“A calma logo vai retornar e as coisas voltarão ao normal”.

Napoleão estava muito mais preocupado com os problemas financeiros familiares que com a situação na França, país com o qual ele nem se importava muito.


Politicamente, Napoleão simpatizava com os ideais revolucionários. Seu tempo no exército e sua adoração por Rousseau enraizaram vários “princípios iluministas” que seriam usados como bandeira no início da Revolução, como igualdade perante as leis, um governo racionalizado e técnico, promoções com base no mérito, etc. Além disso, Napoleão não cultivava nenhum amor pela Igreja ou pela Monarquia, então não demorou muito até se acostumar com o novo status quo.


As pautas da Revolução que mais lhe interessavam eram duas: 1) a possibilidade de ascensão rápida no exército, pois revoluções são excelentes oportunidades para jovens ambiciosos, e 2) as perspectivas para o futuro da Córsega. Napoleão retornou à ilha em 1789, de novo em licença do exército.


Ajudado por seus irmãos Joseph e Lucien – este já membro do Clube Jacobino – Napoleão começou a organizar atividades revolucionárias na ilha, pois acreditava que o caminho mais rápido para uma maior independência era passando pela Revolução. Seus trabalhos incluíam propaganda, a fundação de um clube e o recrutamento de um regimento militar revolucionário – os “Voluntários Corsos” – que serviam como uma milícia. Em janeiro de 1790, a Assembleia Nacional aprovou um decreto transformando a Córsega em um departamento francês e anistiando exilados políticos da ilha, dentre eles Pasquale Paoli, o ídolo de Napoleão, que chegou à ilha em julho de 1790.


Tenente-coronel Napoleão Bonaparte, do batalhão de Voluntários Republicanos Corsos (embora ainda fosse capitão no Exército Francês)


Napoleão e Paoli, contudo, não tardariam a entrar em conflito. Conforme a Revolução avançava, seus elementos mais polarizantes foram surgindo. O primeiro exemplo foi a Constituição Civil do Clero, aprovada em julho de 1790 e que foi absolutamente incendiária para a população católica francesa. Napoleão, que defendia a medida, quase foi linchado em Ajaccio.


A fuga do Rei, o início da Guerra da Primeira Coligação, a Proclamação da República, a execução do Rei e o estabelecimento do Comitê de Salvação Pública mostraram que neutralidade não seria mais possível na França Revolucionária. Profundamente marcante para Napoleão foi a tomada do Palácio das Tulherias, em 1792, evento ao qual Napoleão assistiu pessoalmente de um terraço próximo.


A Tomada das Tulherias, em 1792, marcou profundamente Bonaparte: a Guarda Suíça que defendia o Rei Luís XVI foi massacrada por uma multidão


Os paolistas tinham aspirações de independência total da Córsega, logo se distanciando de Paris e abrindo conversas com a Inglaterra. Napoleão, cada vez mais ligado aos jacobinos, acabou por se manter leal à Assembleia Legislativa e, posteriormente, à Convenção Nacional, ganhando assim seu primeiro comando significativo, fonte de grandes atritos com Paoli. Quando os paolistas superaram o poder jacobino sobre a Córsega em 1793, declarando a soberania do Rei Jorge III sobre a ilha, Napoleão e sua família foram forçados a fugir para a França continental.


Toulon

A família Buonaparte chegou ao porto de Toulon em junho de 1793, se instalando em uma vila próxima logo depois. Já capitão, Napoleão foi incumbido de organizar os comboios de pólvora para um dos exércitos revolucionários franceses, o Exército da Itália (esta nomenclatura é um pouco confusa. Os exércitos revolucionários eram nomeados de acordo com o teatro de operações).


Embora Napoleão tivesse estourado por muito suas licenças, o exército precisava de todos os oficiais que pudesse encontrar. Seus deslizes foram, portanto, ignorados. Por outro lado, sua prolongada ausência da França – tanto de corpo quanto de alma – significou que sua carreira estava bastante atrasada. Um golpe de sorte política mudaria esta situação.


Em julho de 1793, Bonaparte publicou um panfleto chamado “Le souper de Beaucaire” (a ceia em Beaucaire), uma narrativa ficcional altamente pró-jacobina (e que continha algumas boas alfinetadas em Paoli). O panfleto agradou tanto a Saliceti – um velho conhecido e conterrâneo de Napoleão, além de importante figura política – quanto a Augustin Robespierre, irmão mais novo do famoso Maximilien. Tanto Saliceti quanto Augustin se convenceram que Napoleão era um verdadeiro e legítimo jacobino. O timing não poderia ser melhor, pois era justamente de um militar jacobino que os dois precisavam.


“Le souper de Beaucaire”, importante panfleto político baseado em uma conversa entre Bonaparte e quatro mercadores, durante a qual as ações do governo Jacobino são defendidas.


Neste momento, ocorriam na França as Revoltas Federalistas: insurreições contra a radicalização do governo de Paris. As cidades rebeldes, quando retomadas pelos jacobinos, sofriam o preço da insubordinação. Foi o exemplo de Marselha, recapturada em 24 de agosto. Vendo o destino da cidade vizinha, os revoltosos em Toulon – porto de importância estratégica alta – decidiram abrir as portas da cidade aos ingleses e aos seus aliados. Antes uma ocupação estrangeira que voltar aos jacobinos. Em 29 de agosto de 1793, 15 mil soldados aliados (ingleses, espanhóis, napolitanos) sob o comando do almirante Hood e do general O’Hara entraram em Toulon. As forças da Convenção, comandadas pelo general Carteaux, rapidamente envolvem a cidade, dando início ao Cerco de Toulon.


O Cerco de Toulon (agosto a dezembro de 1793)


E onde entra Bonaparte? Devido à sua proximidade das operações e às suas conexões políticas, Napoleão foi promovido a major e assumiu um comando de artilharia junto aos sitiantes. Logo concebeu um plano para tomar a cidade, que foi repassado aos seus superiores: a primeira coisa a fazer seria expulsar os navios aliados guardando o porto. Como isto só poderia ser feito por meio da artilharia, seria necessário avançar as baterias. Após sucessivas trocas de comandantes, o plano de Napoleão foi aceito.


Napoleão em Toulon. Seu plano foi responsável pela retomada da cidade


Entre os dias 16 e 17 de dezembro, os franceses lançam uma operação noturna de tomada de fortes, para dar às baterias uma posição privilegiada de ataque contra a esquadra inimiga. No dia 18, sob fogo pesado – e como previsto – os aliados decidiram reembarcar e deixar a cidade. Toulon foi recapturada pelas forças da Convenção no dia 19 de dezembro, pondo fim ao cerco. Evidentemente, pois a guilhotina da igualdade não tinha o hábito de ser misericordiosa, os habitantes foram severamente punidos pela colaboração com o inimigo.


A evacuação da frota aliada logo resultou na queda de Toulon, como planejado por Bonaparte


Por seus esforços em conceber a estratégia do sucesso – bem como por sua bravura pessoal – Bonaparte foi provido a general de brigada, tendo então 24 anos de idade. Além disso, Napoleão entrou no radar do político Paul Barras, enviado pela Convenção para “pacificar” a cidade. Barras, que viria a desempenhar papel importante nas mudanças políticas futuras, não demorou a perceber que seria bom prestar atenção neste oficial. Claramente, o atraso que a carreira de Napoleão sofrera foi plenamente compensado por suas ações em Toulon.


Napoleão mostrou grande coragem pessoal em Toulon, em uma ocasião pegando a vareta e as luvas de um artilheiro morto para ajudar a carregar os canhões (e pegando sarna no processo). Também levou uma baionetada na perna durante a tomada de um forte.


Paris

Após Toulon, Napoleão recebeu o comando da artilharia do Exército da Itália, onde combateu ao lado do famoso general André Masséna, que futuramente seria nomeado Marechal do Império. Após o fim das campanhas de maio de 1794, voltou para França, onde passou a cuidar de um problema ainda em aberto: sua vida amorosa.


Inicialmente, Napoleão tentou a sorte com sua cunhada Désirée Clary. A irmã mais velha de Désirée, Julie, casou-se com Joseph Bonaparte em agosto de 1794, trazendo um dote que pôs fim aos problemas financeiros da família. Um de seus irmãos mais novos, Lucien, também estava casado. Napoleão e Desirée começaram uma relação sobretudo epistolar, ficando noivos em abril de 1795. Este relacionamento não se concretizaria, por razões que veremos a seguir. No momento, sigamos com um evento que corria em paralelo: a queda do regime jacobino.


As execuções de Georges Danton e Camille Desmoulins a mando de Maximilien Robespierre mostraram que o Comitê de Salvação Pública estava fora de controle e acabaria por devorar a todos. Os sucessos militares da França aliviaram um pouco as tensões domésticas, abrindo espaço para que se formasse uma conspiração anti-jacobina, sobretudo contra a chamada “ala montagnard”. Esta conspiração ficou conhecida como Reação Termidoriana, e ocorreu em julho de 1794.


A prisão dos Irmãos Robespierre durante a Reação Termidoriana rendeu sérios problemas a Napoleão. Na imagem, Maximilen leva um tiro na mandíbula durante sua prisão, mas especula-se que o tiro possa ter sido uma tentativa fracassada de suicídio


Devido à proximidade de Napoleão com Augustin Robespierre, o general ficou em maus lençóis, sendo preso no dia 9 de agosto. Julga-se que se ele estivesse em Paris, teria sido guilhotinado, mas a sorte o colocou em Nice no momento de sua prisão, poupando-o a cabeça. Seus antigos aliados, como Saliceti e Barras – figuras chave na Reação – nada fizeram para acelerar sua soltura, por medo de se comprometerem ao ajudarem uma figura conhecidamente jacobina. Os termidorianos, entretanto, não eram tão sedentos por sangue quanto seus antecessores, e Napoleão foi solto em 20 de agosto.


Sua carreira, por outro lado, sofreu um baque. Após participar de uma expedição fracassada contra a Córsega – ainda em mãos inglesas – Napoleão encontrava-se sem grandes prospectos. Hierarquicamente moderno dentre os generais e manchado politicamente, recebeu ordens de assumir o comando da artilharia na Guerra Civil da Vendeia, oeste francês, onde monarquistas estavam em insurreição aberta desde 1793. Sem o menor interesse em matar franceses, Napoleão seguiu para Paris em maio de 1795, na esperança de angariar um posto melhor. Após a oferta inicial ser rebaixada para um comando de infantaria, Napoleão se sentiu insultado e simplesmente ignorou as suas ordens. Alegando problemas de saúde, decidiu ficar em Paris para ver se algo surgia.


Nada de muito bom, entretanto, apareceu. Napoleão chegou a considerar um posto no exército do Sultão Otomano, mas acabou desistindo da ideia. Os administradores militares em Paris já estavam sem paciência para sua displicência e ordenaram que se apresentasse a uma junta, que determinaria se Bonaparte estava de fato doente como alegado. Cobrando favores dos seus antigos contatos políticos, Napoleão evitou uma punição e recebeu um posto de gabinete no Ministério da Guerra, mais precisamente no Gabinete de História e Topografia, setor encarregado do planejamento da estratégia francesa. Embora fosse um trabalho bastante burocrático, o cargo forneceu a Napoleão a chance de estudar os quadros do exército, guardando em mente os nomes dos generais considerados mais competentes. Além disso, ficando em Paris, Bonaparte manteve-se próximo ao centro do poder.


Com Napoleão em Paris, sua relação com Desirée esfriou, levando ao rompimento do noivado. De seu lado, Desirée casaria com o general Jean-Baptiste Bernadotte, outro futuro Marechal do Império e, devido a uma reviravolta muito curiosa de eventos, futuro Rei da Suécia. Não é surpreendente que Napoleão e Bernadotte jamais chegassem a ter relações muito boas. Já Napoleão, embora nunca tenha superado psicologicamente o transtorno emocional do rompimento, logo conheceu a mulher que seria um desafio maior que todas suas campanhas: Joséphine de Beauharnais.


Joséphine nasceu na Martinica em 1763. Após se mudar para Paris em 1780, casou-se com um primo, o visconde Alexandre de Beauharnais, com quem teve dois filhos: Eugène e Hortense. Alexandre foi guilhotinado em 1794, durante o terror, período que viu Joséphine presa e submetida a condições bastante precárias, deixando-a psicologicamente marcada. Após sua soltura, Joséphine passou a frequentar os altos círculos de Paris, eventualmente se tornando amante de figuras como o general Hoche e Paul Barras.


Aproveitando a situação do confisco de armas após o Vendémiaire (já falaremos sobre isso), Joséphine enviou seu filho Eugène ao quartel de Napoleão para recuperar a espada do pai. Entendendo a “deixa social”, Napoleão acabou por visitar Joséphine, logo encontrando-se completamente apaixonado. Joséphine, infinitamente mais “vivida” no campo amoroso, não partilhava desta paixão toda, mas sabia que estava ficando velha e que Napoleão – que ela dobrava sem muita dificuldade – seria um partido bom o suficiente. Napoleão também não era nenhum bobo e tinha total intenção de usar as conexões políticas/ex-amantes da esposa a seu favor.


Os dois se casaram em 9 de março de 1796, em uma cerimônia civil no 2e arrondissement de Paris, mentindo na certidão para disfarçar a diferença entre as idades. Como presente de casamento, Napoleão deu à noiva um medalhão banhado em ouro, com as palavras “Ao Destino” nele gravadas. Curiosamente, foi o noivo quem se atrasou: Napoleão chegou duas horas depois do horário previsto. O motivo: ele estava ocupado com o que provavelmente seria o comando mais importante de sua carreira militar.


Napoleão e Joséphine: uma história complexa


Como aconteceu esta promoção? Em 1795, os novos líderes franceses viram a necessidade da reformulação do sistema político, pois o atual provou-se falho demais. Para este fim, foi aprovada a Constituição do Ano III, que entraria em efeito em outubro. Segundo este documento, era o Diretório Nacional, composto de cinco pessoas, que substituiria o antigo Comitê de Salvação Pública como carro executivo do governo.


Durante a transição entre os sistemas, não houve um cuidado muito grande em deixar claro quem mandaria no país, causando um certo vácuo organizacional. Em outras palavras, era o momento perfeito para uma reação de grupos insatisfeitos com a Revolução e com a República. O levante foi planejado para o início de outubro, e armas começaram a ser enviadas clandestinamente para Paris.


Com o início das revoltas, que juntaram de monarquistas a liberais e até parisienses comuns, Paul Barras foi nomeado comandante do Exército do Interior. Sua missão era clara: parar o ataque e salvar a Revolução. Barras, ciente de suas limitações enquanto militar, mandou chamar seu velho conhecido Bonaparte, que recebeu o posto de segundo-em-comando no da 4 de outubro de 1795. No dia 5, começou o levante armado que ficou conhecido como 13 Vendémiaire.


Lembrando-se da invasão do Palácio das Tulherias, Napoleão estava decidido a parar a multidão independente do custo, mesmo que isso significasse baixas civis pesadas. Após ordenar que seu subordinado (e futuro cunhado) capitão Murat trouxesse canhões para o centro de Paris, Bonaparte armou um perímetro com suas baterias e botou as tropas em forma, em preparação para enfrentar os quase 30 mil revoltosos.


Quando os insurgidos encontraram as tropas do governo, Napoleão ordenou fogo livre, incluindo tiros de metralha – até então nunca usados contra a população civil. Após suprimir a maior parte dos grupos, o general e suas tropas avançaram contra a igreja de São Roque, o quartel-general da revolta. Avançando os canhões e colocando a igreja em seu alcance, só sobrou aos rebeldes a rendição. A Revolução estava salva e Napoleão ganhou a gratidão dos poderosos.


Embora o ataque contra civis seja uma mancha inegável em sua biografia, é debatível o grau de “maldade” com que o ato foi realizado. Não é debatível, entretanto, o quanto a carreira de Bonaparte avançou: nomeado general de divisão e comandante do Exército do Interior, todos os seus problemas passados no serviço foram esquecidos.


13 Vendémiaire: suprimir sem remorso a revolta civil rendeu a Napoleão a gratidão do sistema


Barras, que julgava Napoleão um militar competente, mas um “estúpido controlável” em termos políticos, começou a fazer lobby para que Bonaparte recebesse o comando geral do Exército da Itália. Sua facilidade com a língua italiana, suas habilidades militares e sua experiência prévia na região garantiram a anuência do Ministro da Guerra, Lazare Carnot.


Em 2 de março de 1796, Napoleão recebeu formalmente a nomeação para assumir o Exército da Itália, partindo de Paris no dia 11, após passar menos de 48 horas em lua de mel. Em uma carta para Joséphine datada do dia 14, Napoleão retira o “u” de seu nome, assinando pela primeira vez como “Bonaparte”. Com apenas 26 anos, era hora de assumir o posto que mudaria sua vida.


Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seu autor. As possíveis opiniões aqui emitidas não correspondem necessariamente àquelas do site.

 

Por Leonardo Mouta

Militar reservista da Força Aérea Brasileira e estudante de engenharia aeroespacial no ITA. Atualmente reside na França, onde participa de um programa de intercâmbio e dupla diplomação. Escreve sobre História militar e História da ciência/engenharia.

 

Fontes:

“Napoleon: A Life”, Andrew Roberts

“Napoleon: On War”, Bruno Colson

“The French Revolution”, Christopher Hibbert

“Napoléon : La Grande Aventure”, revista Le Point

“L’Épopée Napoléonienne”, Jean Tranié


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