A Vida de Napoleão Bonaparte – Parte 2: Glória

Introdução

Em 5 de maio de 1821, morreu Napoleão Bonaparte. Não é de se espantar que o bicentenário de sua morte seja marcado por uma espécie de “re-interesse” por este importante personagem, seja nos noticiários, nas conversas ou mesmo nas provas de concursos.


Para aproveitar o “timing”, decidi fazer uma série de textos narrando a vida desta figura, ora amada, ora odiada, mas certamente ímpar. Os adjetivos para descrevê-lo variam dependendo de quem conta a história, indo de “Salvador da Revolução” a “déspota sanguinário” (com o bom, velho e anacrônico “proto-Hitler” não falhando em aparecer).


Apesar dos eventuais juízos de valor, Napoleão foi um divisor de águas na história do mundo, alterando o rumo dos eventos do Brasil à Ásia. Esta afirmação vai além da questão militar ou política: o pensamento Europeu jamais seria o mesmo. A própria estruturação da “ciência militar” como a conhecemos deve suas origens ao “fenômeno napoleônico”. Para além da teoria, Napoleão foi transformado até mesmo em referência cultural, aparecendo no hino da Polônia ou como personagem literário em “Guerra e Paz”.


Não obstante sua importância, pouco se aprende sobre como de fato foram a vida e os atos concretos de Napoleão, o homem de carne e osso. É isto que iremos explorar por aqui. Este texto vai dos feitos de Napoleão no comando do Exército da Itália, durante a Guerra da Primeira Coligação, às suas campanhas no Egito e Levante.


A pintura acima, de Antoine-Jean Gros, mostra o general Bonaparte cruzando a ponte de Arcole com a bandeira francesa em mãos. Foi em suas primeiras campanhas que o militar acabou sendo alçado ao status de herói nacional


Campanha na Itália

Após desfrutar da sua curtíssima lua de mel, Napoleão partiu em direção a Nice, sede do Exército da Itália, para assumir seu primeiro grande comando, chegando na cidade em março de 1796. Apesar de ter servido na unidade enquanto artilheiro, significando que as pessoas ali não lhe eram totalmente estranhas, Bonaparte não encontrou um ambiente muito receptivo: por um lado, a falta de pagamento, comida, roupas adequadas, equipamentos e disciplina era refletida na completa desmoralização dos soldados; de outro, vários membros do Estado-Maior do exército mostravam-se ofendidos por terem sido preteridos em relação a um comandante tão jovem.


O Exército da Itália estava em um estado lastimável quando Bonaparte assumiu seu comando


Dentre estes oficiais antigos, encontravam-se os comandantes das cinco divisões do Exército da Itália, generais Sérurier, Augereau, Masséna, Laharpe e Meynier. Estes generais, alguns dos quais acompanhariam Napoleão pelo resto de suas carreiras, eram homens vividos, experientes em combate, difíceis de impressionar e bastante céticos com relação ao novo comandante. A visão do governo sobre o Exército da Itália também não era nada boa: para os líderes em Paris, o Front Italiano era apenas secundário, pois a guerra “de verdade” encontrava-se ao norte, na Campanha do Reno, e esta hierarquia refletia-se diretamente na alocação de fundos para as operações.


Para entender esta leitura do governo, é preciso entender a situação militar europeia em 1796, que ficou um pouco negligenciada enquanto falávamos do nosso protagonista. A França encontrava-se em conflito com praticamente a Europa inteira desde 1792, quando declarou guerra à Áustria. A situação, inicialmente cataclísmica para a Revolução, foi aos poucos se resolvendo: importantes potências como a Espanha e a Prússia acabaram desistindo da guerra (1795) e os sucessos dos exércitos franceses no norte resultaram na conquista dos Países Baixos Austríacos (onde hoje ficam a Bélgica e Luxemburgo) e da República Holandesa, transformada no satélite francês da República Batava. Só restavam realmente em peso na Europa as tropas austríacas, e acreditava-se que o caminho mais rápido até Viena era pelo norte, no Reno, fazendo uso dos exércitos recorrentemente vitoriosos dos generais Jourdan e Moreau.


Napoleão não concordava com esta visão. Nos seus tempos de oficial de gabinete em Paris, ele havia produzido mais de um documento sobre como ganhar a guerra contra os austríacos pelo caminho da Itália. Quando vieram, portanto, as ordens para que os exércitos convergissem contra Viena, Bonaparte sabia que poderia vencer a corrida pela glória de derrotar os Habsburgo. Napoleão deu início aos seus ataques contra os austríacos - e contra seus aliados do reino de Piemonte-Sardenha - ao mesmo tempo em que colocava a casa em ordem.


O avanço francês contra Viena seguiria três eixos de ação: dois principais ao norte, executados pelos exércitos de Jourdan e Moreau, e um secundário ao sul, com o exército de Bonaparte


A restauração do Exército da Itália foi feita por diversas linhas de ação, a mais urgente dentre elas sendo a captação de fundos, obtidos com banqueiros judeus. Com este dinheiro, foi possível pagar os soldados - que estavam à beira de se amotinarem - e melhorar o estado dos equipamentos. Para recuperar a disciplina, Napoleão reorganizou postos, dissolveu unidades e criou cortes-marciais para punir atividades “contra-revolucionárias”. Uma de suas medidas mais importantes foi a nomeação para chefe de gabinete do militar Alexandre Berthier, um homem extremamente competente, gênio da logística e da diplomacia (uma vez convencendo sua esposa e sua amante a morarem juntas na mesma casa) e que se tornaria um dos confidentes mais próximos de Napoleão.


Todas estas medidas práticas ajudaram a tirar da lama o moral do exército, mas não foram suficientes: também era preciso criar entusiasmo com a missão. Em uma série de discursos e despachos habilmente produzidos, Bonaparte conseguiu galvanizar o espírito dos homens, fazendo-os crer que deles dependia o sucesso ou fracasso da Revolução. Com todas essas atitudes garantindo sua competência, o respeito dos soldados e oficiais sob seu comando foi gradualmente conquistado, incluindo aqueles inicialmente céticos quanto ao jovem general.


“Aquele pequeno bastardo de general me enchia de medo!” -Augereau para Masséna sobre Bonaparte

Militarmente, os austríacos dividiram suas forças de forma análoga aos franceses, com a maior parte dos homens concentrada ao longo do Reno sob o comando do arquiduque Carlos, que conseguia segurar o avanço francês. O sul ficou relegado ao comando do general Johann Beaulieu, um militar competente, mas de 71 anos de idade, cujas dificuldades incluíam a coordenação dos soldados austríacos - muitos dos quais nem falavam a mesma língua - e sardenhos, bem como uma subordinação bastante minuciosa à longínqua Viena, o que atrasava o despacho de ordens. Os aliados contavam com um total de 80 mil homens contra os aproximadamente 50 mil de Napoleão.


Mapa dos Estados da Itália durante as campanhas de 1796. Toda a região norte pertencia historicamente à zona de influência dos Habsburgos Austríacos


Napoleão planejava tirar os sardenhos do conflito rapidamente, o que seria feito ameaçando a capital do reino, Turim. Feito isso, os franceses poderiam concentrar todas as suas forças contra os austríacos. Quando os aliados lançaram um ataque no dia 10 de abril de 1796, Napoleão conseguiu contra-atacar e colocar em prática sua estratégia, dando início à Campanha de Montenotte.


O contra-ataque francês assustou os aliados, que tinham opiniões divergentes sobre a estratégia a seguir: os austríacos queriam recuar para leste, em direção a Milão, enquanto os sardenhos desejavam se mover rumo a oeste para defender Turim. Napoleão explorou este desacordo atacando na junção dos dois exércitos, separando-os. Após perseguir vigorosamente os sardenhos, estes foram obrigados a se render após a Batalha de Mondovì, assinando em 28 de abril um armistício que retirava o reino do restante da guerra. Como planejado, os franceses agora estavam livres para lidar com as forças da Áustria.


A vitória em Mondovì resultou na rendição dos sardenhos e possibilitou que os franceses concentrassem suas forças contra os austríacos. A Campanha de Montenotte foi uma mostra do brilhantismo tático de Bonaparte


A campanha de Montenotte também mostrou as habilidades políticas de Napoleão: sabendo que tinha avançado além de sua autoridade ao negociar um armistício com uma nação soberana, era necessário apaziguar Paris. O dinheiro coletado dos derrotados foi enviado para remediar um dos problemas mais sérios enfrentados pelo Diretório Nacional: a hiperinflação. Com os bolsos gordos de tanta prata, o governo passou a fazer vista grossa para os excessos bonapartistas, apesar de se preocupar bastante com a ressonância que os sucessos do militar encontravam na população.


“Soldados, desprovidos de tudo, vocês conquistaram tudo. Ganharam batalhas sem armas, cruzaram rios sem pontes, marcharam sem sapatos e acamparam sem pão. Hoje, por meio dos seus serviços, vocês igualaram os feitos dos exércitos da Holanda e do Reno. Eu vos prometo a conquista da Itália, mas sob uma condição: respeitem a população conquistada e não se entreguem à pilhagem.” -Napoleão às suas tropas após a derrota do Reino de Piemonte-Sardenha

Seguir no plano de ataque aos austríacos envolvia cruzar o Rio Pó, tarefa nada fácil e que foi cumprida em 7 de maio pelo engenhoso general Lannes, cujo talento impressionou profundamente Bonaparte. Agora do mesmo lado da margem, os dois exércitos podiam se enfrentar. Após coagir o duque de Parma a assinar um armistício, Napoleão decidiu mover suas tropas de forma a interceptar os austríacos em Lodi, lugar onde deu-se batalha no dia 10 de maio e que se tornou um dos pontos primordiais da “lenda napoleônica”.


Alcançando a retaguarda austríaca, as forças francesas deveriam tomar a ponte de acesso à cidade para desalojar o inimigo. Este ataque, porém, parecia praticamente suicida, pois a ponte estava guardada por infantaria, cavalaria e artilharia austríacas. Napoleão, após motivar as tropas com um discurso, ordenou o ataque, que foi efetuado com um entusiasmo surpreendente. Os franceses conseguiram tomar a ponte, e Napoleão ganhou dos homens o apelido “le petit caporal” - o pequeno cabo - que, apesar de parecer maldoso, na verdade mostrava o respeito geral pelo comandante segundo as tradições da época.


A tomada da ponte durante a Batalha de Lodi tornou-se um ícone da Campanha da Itália


Napoleão, bastante esperto para assuntos políticos, capitalizou em cima da vitória em Lodi, exagerando as baixas inimigas em suas cartas para a França, ao mesmo tempo que reduzia as suas próprias - prática que seria constante em sua carreira. Também em suas cartas, Bonaparte pedia para que Joséphine se juntasse a ele, mas a moça estava ocupada tendo um caso com um tenente de cavalaria e inventou, como desculpa para não se juntar ao marido, uma suspeita de gravidez


A vitória em Lodi abriu Milão - o coração da Lombardia - para os franceses, que entraram triunfantes na cidade no dia 15 de maio, sob vivas da população (que não nutria nenhum apreço pelos antigos mestres austríacos).


Muito se fala sobre como as guerras do período ajudaram a espalhar os ideais da Revolução Francesa. Após tomar Milão, vê-se que Napoleão contribuiu para este processo, fundando na Lombardia uma república sob proteção francesa, onde foram abolidos os impostos internos, direitos feudais e guetos judeus. Nem tudo, porém, era paz e amor: apesar de poucos episódios de resistência terem se manifestado, os que ocorreram foram suprimidos com bastante violência. Napoleão também espoliou uma pequena fortuna dos cofres locais e nacionalizou os bens da Igreja Católica, mais um capítulo na sua relação extremamente complicada com o Papa.


A entrada dos franceses em Milão, 15 de maio de 1796. A fundação da República Lombardica, primeira das muitas que seriam criadas por Napoleão, contribuiu para a difusão da ideologia francesa


Após a derrota sofrida, as forças austríacas sob Beaulieu rumaram para leste. Durante a retirada, uma guarnição considerável foi deixada na Fortaleza de Mantua, protegendo o caminho para as terras germânicas. Napoleão sabia que a conquista do norte da Itália dependia necessariamente da conquista desta cidade. Desta forma, deu-se início em 2 de junho ao evento que definiria não apenas a Campanha da Itália, mas a Guerra da Primeira Coligação: o Cerco de Mantua.


“Vamos em frente! Ainda temos marchas para completar, inimigos para subjugar, louros para conquistar e insultos para vingar. Depois, vocês retornarão para suas casas, onde homens irão apontar e dizer: ‘ele foi do Exército da Itália’.” - Napoleão discursando para os soldados em Milão

O Cerco da Fortaleza de Mantua, entre junho de 1796 e fevereiro de 1797, definiu o desfecho da Guerra da Primeira Coligação (1792-1797)


Para garantir a segurança da retaguarda do exército, bem como para seguir os desígnios de Paris, Bonaparte fez um detour em direção ao sul, contra o Grão-Ducado da Toscana e contra os Estados Papais. Do primeiro, Napoleão conseguiu a expulsão dos ingleses, bem como o confisco de toda a mercadoria presente no porto de Livorno. Quanto ao segundo, o Papa foi forçado a assinar um armistício, cedendo uma boa quantia de dinheiro aos franceses. Napoleão não nutria nenhum ódio especial contra a Igreja Católica, então o dinheiro pago foi suficiente para que o general convencesse o Diretório a abandonar, pelo instante, planos de ocupação das terras papais. Com estes desastres, o alto comando austríaco exonerou o general Beaulieu, agora responsável pela guarnição em Mantua, e entregou o comando geral das forças ao marechal Wurmser, outro militar da velha guarda.


Wurmser estava a caminho de Mantua com 50 mil homens, com o objetivo de levantar o cerco da fortaleza no que seria a primeira de sucessivas tentativas. Os austríacos inicialmente conseguiram bons resultados, tomando as cidades de Rivoli e Brescia. Napoleão, porém, logo retomou a iniciativa, derrotando em agosto os austríacos em Lonato - onde, pela primeira vez, fez uso do sistema conhecido como bataillon carré - e Castiglione, encerrando a primeira tentativa do socorro aos sitiados.


Tentativas austríacas de levantar o Cerco de Mantua


Uma segunda tentativa de resgate foi rechaçada em setembro, o próprio Wurmser sendo obrigado a se refugiar em Mantua com seus homens, e Napoleão aproveitou as breves “férias” para encontrar a esposa, agora em Milão (em companhia do amante, diga-se de passagem). Neste período, também enviou para a França diversos estandartes inimigos capturados, aumentando seu prestígio junto à população, e fundou a República Cispadana, juntando diversos territórios do norte italiano sob o sistema administrativo francês.


A folga, porém, foi curta, pois o sucesso do arquiduque Carlos contra as forças francesas ao norte dava à Áustria a liberdade de enviar mais homens para o sul, no que deu início, em novembro, à terceira tentativa de levantar o cerco. Esta provavelmente foi a tentativa que chegou mais perto do sucesso, mas também fracassou: após a derrota na Batalha de Arcole, um dos mais famosos eventos da carreira de Napoleão, os austríacos decidiram recuar para o inverno.


A Batalha de Arcole, de 15 a 17 de novembro, é um dos mais famosos momentos da carreira de Napoleão. O general, segurando a bandeira francesa, correu à frente dos soldados para capturar uma ponte sob controle austríaco. Contrariamente à lenda, entretanto, os soldados ficaram paralisados de medo, e a ponte só foi tomada dias depois.


Após o inverno, a situação para os defensores de Mantua estava crítica: mais de 9 mil pessoas, já reduzidas à situação de comer cachorros e gatos, morreram de fome e de doenças durante os meses finais de 1796. A quarta tentativa de liberar a fortaleza poderia muito bem ser a última.

Em janeiro, as forças de resgate encontraram os franceses em Rivoli, lugar onde ocorreria o ponto decisivo do cerco de Mantua. Entre os dias 14 e 15, os franceses seguraram as forças do general húngaro Alvinczi, derrotando decisivamente os austríacos. Após uma tentativa fracassada de fuga, rechaçada em La Favorita, Wurmser e os defensores de Mantua se renderam no dia 2 de fevereiro, encerrando o cerco com uma vitória francesa. A notícia da queda da fortaleza, acompanhada do toque de trompetes, foi recebida com júbilo pela população parisiense.


A vitória de Napoleão na Batalha de Rivoli (14 e 15 de janeiro, 1797) encerrou as tentativas austríacas de levantar o cerco da fortaleza de Mantua. Os sitiados se renderiam logo depois.


Com Mantua em mãos francesas, Napoleão encontrou-se livre para seguir rumo a nordeste, em direção à região do Tirol, já no quintal dos Habsburgo. Seu plano inicial era realizar um movimento em pinça coordenado com os exércitos no Reno, mas este plano foi abandonado, pois nem Jourdan nem Moreau conseguiram avançar com suas tropas para dentro da Alemanha. O arquiduque Carlos, responsável por segurar os franceses ao norte, agora liderava as tropas contra Napoleão, que não se impressionou com as habilidades de seu famoso adversário. Após uma série de pequenos embates, Napoleão encontrou-se em uma posição que o permitia ameaçar Viena. O Imperador Francisco, não querendo arriscar a perda de sua capital, aceitou um armistício no dia 2 de março de 1797. Estava derrotado o último inimigo militarmente ativo da França Revolucionária. Um armistício, entretanto, é só um fim de hostilidades, não um acordo de paz. Mas, mesmo assim, este fim de hostilidades é um marco na Revolução Francesa: será que o país agora teria paz? De qualquer forma, Paris estava em festa, e o homem do momento era Bonaparte.


Interlúdio

Negociações começaram imediatamente após o armistício, com o lado francês representado por Bonaparte em pessoa (e não por um ministro plenipotenciário designado por Paris). Um acordo preliminar foi firmado em Leoben no dia 19 de abril: segundo seus termos, a Áustria cedia à França os Ducados de Milão e Modena, bem como os Países Baixos Austríacos, efetivamente estendendo as fronteiras francesas até o Reno. Dentre os pontos mais complicados, restava a questão de Veneza.


Uma cláusula secreta do acordo estipulava a divisão da República de Veneza entre França e Áustria, apesar de Veneza tratar-se de um Estado independente, o que dava a esta partição um sentido um tanto nefasto. Aproveitando-se de um incidente naval que resultou na morte de um capitão francês, bem como de levantes anti-franceses em Brescia e Bergamo, Napoleão invadiu Veneza, que rendeu-se no dia 12 de maio - tornando-se um satélite francês e encerrando os seus 1200 anos de independência. Tudo isso foi feito sem a anuência do Diretório.


A República de Gênova sofreu um destino similar ao dos vizinhos venezianos: após um fracassado levante pró-França contra as autoridades genovesas, Napoleão usou a morte de franceses no referido levante como desculpa para interferir no governo local, que logo capitulou. Assumindo o poder na região, Napoleão transformou Gênova na República Liguriana em junho de 1797. Finalmente, para dar um tempo com a criação de novas repúblicas, diversos territórios - incluíndo a República Cispadana e a República Lombardica, bem como a parte da República de Veneza cedida à França nos acordos com a Áustria - foram fundidos na República Cisalpina, com capital em Milão. Importante também ressaltar que os franceses passaram a mão leve nos tesouros italianos durante este período: não foi confiscado apenas dinheiro, mas diversas obras de arte foram enviadas para museus na França.


O resultado das campanhas de Napoleão no norte da Itália: fundação da República Liguriana e da República Cisalpina. Os demais Estados, apesar de não terem suas estruturas tão drasticamente alteradas, viraram clientes franceses.


A criação destas novas repúblicas gerou uma onda de entusiasmo nacionalista na Itália, com diversos homens se voluntariando para as milícias locais, além de aumentar ainda mais a força do nome de Napoleão, visto como um homem forte e sem laços com a política decrépita que existia no país. De fato, a situação do Diretório estava bastante desfavorável: a inflação generalizada e o descrédito do governo junto à população levaram a um ganho tremendo das alas monarquistas nas eleições, incluindo até mesmo a escolha de um monarquista para membro do Diretório.


A possibilidade de um golpe à direita ou à esquerda poderia dificultar a posição de Napoleão, que decidiu apoiar um expurgo promovido por seu antigo aliado Paul Barras: enviando para Paris um subordinado seu, general Augereau (republicano ferrenho), Napoleão garantiu o sucesso do golpe que ficou conhecido como 18 Frutidor, executado no dia 4 de setembro. Políticos dissidentes - bem como alguns oficiais bastante competentes - foram presos e deportados (a guilhotina saíra de moda), e o Diretório, de novo sob o controle firme de Barras, devia (mais uma vez) sua existência a Napoleão.


O golpe do 18 Frutidor removeu elementos monarquistas da política francesa. Na imagem, homens sob o comando do general Augereau, enviado da Itália por Napoleão, invadem o Palácio das Tulherias e prendem o general Charles Pichegru


Com o Diretório parando de fungar em seu cangote, Napoleão obteve mão livre nas negociações definitivas com o enviado austríaco, Conde Cobenzl. Na meia-noite do dia 17 de outubro, as duas partes assinaram o Tratado de Campo Formio, estabelecendo formalmente a paz entre França e Áustria. Os termos do tratado basicamente confirmavam o que foi firmado nos acordos preliminares: reconhecimento das repúblicas italianas recém-criadas, passagem de territórios austríacos para a França, divisão da República de Veneza entre as duas potências, amizade eterna, etc. O tratado foi enviado para Paris, onde foi rapidamente ratificado pelo Diretório, encerrando 5 anos de guerra com a Áustria.


Nominalmente, considera-se que aqui estava encerrada a Guerra da Primeira Coligação. Entretanto a paz com a Áustria marca apenas o aplacamento do último inimigo militarmente ativo, pois o Reino da Grã-Bretanha continuava empenhado em se opor à França Revolucionária. Todas as figuras da época sabiam que só haveria paz verdadeira quando um dos dois países cedesse. Preparando-se para um novo embate com os ingleses, o Diretório nomeou Napoleão como comandante do recém criado Exército da Inglaterra.


“Nosso governo precisa destruir a monarquia anglicana, ou esperar que nós mesmos sejamos destruídos pela corrupção desses ilhéus intriguentos. O momento presente é uma boa oportunidade. Concentremos nossas atividades no cenário naval e partamos para a destruição da Inglaterra. ” - Carta de Bonaparte a Charles Talleyrand, Ministro de Negócios Estrangeiros

De volta a Paris em dezembro para cuidar dos assuntos do Exército da Inglaterra, Napoleão preferiu evitar os holofotes públicos. Apesar de ser novo demais para se tornar um Diretor, multidões de apoiadores queriam ver o homem no poder, com alguns até sugerindo que o general fosse feito Rei da França. Para evitar qualquer suspeita de trama, Napoleão não passava recibo destas manifestações populares, mas é difícil imaginar que o homem fosse totalmente indiferente a elas. Também em dezembro, foi eleito membro do Institut de France, a mais alta sociedade intelectual do país.


Voltando-se para a questão da invasão da Grã-Bretanha, a decisão de Bonaparte, após concluir seus trabalhos de inteligência, foi a da impossibilidade de tal empreitada, anunciando ao Diretório - em um relatório datado de fevereiro de 1798 - que ele não tentaria realizar esta tarefa. A avaliação de Napoleão estava correta: apesar de a maior parte das bases navais inglesas de ultramar terem sido perdidas, a vitória sobre os espanhóis no Cabo de São Vicente (fevereiro 1797) e sobre os holandeses em Camperdown (outubro 1797) significava que a França não poderia juntar forças aliadas suficientes para garantir superioridade naval.


“Independente dos esforços que façamos, levaremos alguns anos até ganharmos supremacia naval. Uma tentativa de invasão da Inglaterra sem tal supremacia é a tarefa mais difícil e audaciosa já tentada. [...] Devemos nos dar por satisfeitos em manter uma aparência (de invasão), enquanto concentramos nossos esforços no Reno, para privar a Inglaterra de Hanover, ou então tentar uma expedição rumo ao leste que atrapalharia o comércio inglês com as Índias.” - Carta de Napoleão ao Diretório

O Diretório, considerando as propostas apresentadas, deu carta branca para que Napoleão preparasse uma invasão do Egito, com o objetivo de desestabilizar as rotas inglesas de comércio pelo Mediterrâneo oriental. Para o Diretório, esta também era uma boa oportunidade de tirar Napoleão da França, pois sua popularidade estava incomodando; se ele voltasse derrotado, tanto melhor inclusive.


Egito e Levante

Apesar de o Egito estar nominalmente sob o controle do Império Otomano, um país tradicionalmente aliado à França, o controle local restava de facto com os Mamelucos (inicialmente soldados-escravos, os Mamelucos tomaram o poder antes de serem conquistados pelos otomanos), que eram detestados pela população. A tomada do Egito desestabilizaria o poder inglês na região leste do Mediterrâneo, com os efeitos sendo sentidos até a Índia. Foi para este fim que criou-se o Exército do Oriente, em 5 de março de 1798, com o comando entregue a Napoleão Bonaparte.


Napoleão recebeu um cronograma apertado para montar a expedição. Suas responsabilidades incluíam a captação de fundos e o recrutamento de homens. Além do seus antigos subordinados no Exército da Itália, como Lannes e Berthier, Napoleão também recrutou para a campanha algumas novas figuras de destaque, dentre as quais os generais Davout, Desaix e Kléber. Seu irmão Louis e seu enteado Eugène também foram convocados.


Nem só de militares, porém, era composta a expedição. Sua indicação para o Institut de France trouxe a Napoleão a oportunidade de conhecer os maiores intelectuais da época, uma centena dos quais sendo convidados para acompanhá-lo ao Egito, onde estes savants poderiam conhecer e estudar os mistérios da antiguidade.


A Pedra de Rosetta foi uma importante peça capturada pelas forças napoleônicas, posteriormente entregue aos savants da expedição para estudos


Apesar da quantidade de pessoas envolvidas, o destino da expedição permaneceu razoavelmente bem-guardado, o que manteve os ingleses na ignorância. Sabia-se que os franceses planejavam um ataque, mas o possível alvo variava do Mar Negro a uma invasão da própria Grã-Bretanha. Com as forças francesas se concentrando no porto de Toulon, o almirante inglês Horatio Nelson foi designado para comandar um esquadrão no Mediterrâneo, onde deveria vigiar os movimentos do inimigo.


O Exército do Oriente deixou Toulon em maio de 1798, transportado pela esquadra do almirante Brueys. Por uma coincidência meteorológica, o mau tempo fez com que Nelson perdesse a partida francesa, colocando o almirante em um jogo de gato e rato pelo Mediterrâneo.


Os franceses chegaram à ilha de Malta - ponto estratégico no Mediterrâneo e antiga aliada inglesa - no dia 10 de junho. Os Cavaleiros de Malta, ordem religiosa responsável pela administração local, logo se renderam, resultando na conquista de Malta pelos franceses e na completa reorganização do sistema político local. De lá, a esquadra partiu para Alexandria, se esquivando dos navios de Nelson mais duas vezes.


A Conquista Francesa de Malta, em 1798, encerrou os mais de 250 de domínio dos Cavaleiros Hospitalários sobre a ilha


A armada de Brueys e o Exército do Oriente de Napoleão chegaram a Alexandria no dia 1o de julho, tomando a cidade sem muitas baixas (apesar do estado de alerta das forças locais). Após uma semana em Alexandria, período durante o qual o exército foi desembarcado e a diplomacia francesa tentou apaziguar o Sultão Otomano (que acabou declarando jihad contra os invasores), as tropas seguiram rumo ao Cairo. Em vez de mandar os navios de Brueys recuarem para uma posição segura, Napoleão deu ordem para que continuassem ancorados na Baía de Aboukir, erro que se mostraria grave.


Batalhas de Napoleão Bonaparte no Egito e Levante. Autoria: Andrew Roberts


Para ganhar os corações e mentes dos locais, Napoleão, um “ateu iluminista” aos moldes setecentistas, usou até das figuras de Alá e Maomé, tendo estudado o Corão durante a viagem. O plano funcionou tão bem que alguns locais até se convenceram de que Napoleão havia se convertido ao islã (curiosamente, um de seus generais realmente se converteu).


“Povo do Egito! Eu vim para restaurar vossos direitos e punir os usurpadores. Eu reverencio Deus, seu profeta Maomé e o Corão” - Proclamação de Napoleão aos egípcios

Durante o caminho rumo ao Cairo, o exército foi atacado por forças mamelucas, mas logo foi possível perceber que as táticas medievais dos defensores do Egito não chegariam nem perto de fazer frente às forças francesas, já bem mais disciplinadas e treinadas que no começo das Guerras Revolucionárias. O ataque mameluco facilmente rechaçado em Chobrakhyt (Chebreis) mostrou aos franceses que o terreno hostil e as diversas formas de peste seriam os verdadeiros inimigos da campanha. Foi também rumo ao Cairo que Napoleão tomou conhecimento do adultério de Joséphine, já amplamente comentado em Paris e cujas suspeitas já perduravam há tempos. Escrevendo para casa, fica claro que toda a paixão pré-existente de Napoleão por Joséphine estava acabada e que a intenção do general era pedir um divórcio (para jogar mais lenha na fogueira, as cartas foram interceptadas pelos ingleses e publicadas na imprensa).


Foi também rumo ao Cairo que ocorreu, em 21 de julho, o embate mais notório da Campanha do Egito: a Batalha das Pirâmides, nos arredores de Embaleh. Apesar de ser contestado se os soldados viam ou não as Pirâmides de Giza durante a batalha, o simbolismo de lutar assim tão perto dos antigos Faraós teve um efeito inegável no moral dos homens, que derrotaram os atacantes mamelucos em pouco mais de duas horas. No dia seguinte, Napoleão e seus homens conquistaram Cairo. Como de costume, toda a administração local foi transformada para adotar o modelo francês.


“Soldados, do alto destas pirâmides, quarenta séculos de história vos contemplam”


Napoleão entrou no Cairo, a maior cidade da África, no dia seguinte à sua vitória na Batalha das Pirâmides


Apesar de todo o sucesso do exército, um dos maiores reveses da história naval da França estava ocorrendo não muito longe dali: o almirante Nelson, após finalmente localizar a esquadra francesa na Baía de Aboukir (e fulo da vida por ter sido feito de trouxa), realizou em 1o de agosto o ataque que ficou conhecido como a Batalha do Nilo, uma derrota monstruosa para o almirante Brueys (que pereceu em combate). A aniquilação quase completa da esquadra francesa efetivamente fez com que o Exército do Oriente ficasse “ilhado” no Egito, além de garantir à Inglaterra uma posição de supremacia no Mediterrâneo.


Notícias da vitória inglesa também ajudaram a atrair os inimigos da França para uma nova coligação. A Guerra da Segunda Coligação, mais um conflito das monarquias europeias contra a França Revolucionária, seria deflagrada em novembro, quando tropas da Áustria tomaram os Estados Papais - transformados na “República Romana” após uma invasão francesa sob o comando do general Berthier em fevereiro de 1798 - e restauraram a autoridade do Papa.


A vitória decisiva da Grã-Bretanha na Batalha do Nilo, em 1o de agosto de 1798, privou o Exército do Oriente do único meio possível de retorno à França. No quadro, ilustra-se a explosão do navio L’Orient, do almirante Brueys


No Egito, Napoleão estava com um problema sério: tropas turcas estavam se concentrando no Levante - região da atual Síria, Líbano, etc. - para lançarem um ataque que tinha por objetivo de retomar as terras conquistadas. Um motim da população do Cairo no dia 21 de outubro atrasou os preparativos para um ataque preliminar francês. Pacificada a insurreição - e após arranjar uma amante, para se vingar de Joséphine - Napoleão partiu no que ficaria conhecida como a Campanha da Síria, para enfrentar os exércitos turcos. A conquista do norte do Egito por Desaix resultou em um caminho de volta mais tranquilo que o de ida para o Exército do Oriente, agora pronto para lançar um ataque contra as forças de Ahmed Jezzar, paxá de Acre e chefe das forças otomanas. Além de eliminar a ameaça à conquista do Egito, a campanha também tinha o objetivo de privar a Marinha Inglesa de importantes portos da região, como Haifa, Acre e Jafa.


Em retrospecto, não havia a menor chance de esta campanha ser bem sucedida: em um território complicado como as terras levantinas, a falta de suprimentos, homens ou linhas de logística eram suficientes para frustrar até um gênio militar do naipe de Bonaparte. Mas é fácil ser profeta do passado, e Napoleão deixou o Cairo para enfrentar seus inimigos no dia 10 de fevereiro de 1799, vencendo um combate no forte de El-Arish no dia 20.


Passando sem grandes problemas por Gaza, Napoleão chegou a Jafa, onde começou um cerco no dia 3 de março contra as forças turcas ali presentes. As coisas aqui se degeneraram rapidamente em um dos episódios mais controversos da carreira de Napoleão. Após os defensores da cidade terem decapitado o mensageiro francês enviado para propor uma rendição, a ordem de invasão foi dada e a cidade rapidamente foi tomada. Os franceses, após semanas nas piores condições, se entregaram à barbárie, cometendo roubos, assassinatos e estupros sem cessar.


Mas os problemas não se encerram por aí, pois o destino dos prisioneiros de guerra também foi inglório. Vários dos homens capturados estavam envolvidos no combate em El-Arish, onde foram soltos sob o juramento de não voltarem a integrar as forças otomanas. Como punição pela falta de palavra, Napoleão ordenou que todos os presos fossem fuzilados em turnos à beira do mar, episódio que ficou conhecido como o Massacre de Jafa e que suscitou o ódio geral contra os invasores. Mesmo para os padrões da época, a punição foi sanguinária ao ponto de gerar repúdio até mesmo entre os franceses.


A fé dos seguidores de Alá deve ter sido reafirmada quando um surto de peste acometeu os franceses em Jafa. Os doentes foram quarentenados em uma seção da cidade, onde a maioria simplesmente esperava a morte chegar. Acreditando que a doença só pegava naqueles que a temiam, Napoleão, em um ato de extrema coragem (ou loucura), visitou pessoalmente seus soldados doentes no hospital. Deixando boa parte do seu efetivo, Napoleão seguiu rumo a Acre no dia 14 de março.


Bonaparte visitando os doentes em Jafa. Seria o surto de peste uma punição pelos massacres cometidos pelos franceses durante a tomada da cidade?


Acre não estava nas mesmas condições de Jafa: dois navios da Marinha Inglesa auxiliavam os mais de 4 mil defensores turcos, circundados pelas muralhas e fossos da cidade. Apesar destas defesas, quando o Cerco de Acre começou, no dia 19, os oficiais franceses acharam que a cidade logo cairia. A realidade, entretanto, provou-os enganados: apesar de uma vitória na Batalha de Monte Tabor, no dia 16 de abril, o cerco estava cobrando um preço alto demais, com dois generais mortos, diversos oficiais feridos (incluíndo Eugène e Lannes) e com o próprio Napoleão quase morrendo para um tiro de canhão. Reforços turcos também estavam à vista e não tardariam em chegar.


O cerco, entretanto, teve um efeito colateral bastante interessante: o comandante do esquadrão inglês, comodoro Smith, enviou para os franceses diversos jornais europeus, mostrando a situação precária do país frente à Segunda Coligação. O que foi pensado como uma operação de desestabilização psicológica acabou calhando a Napoleão, que buscava há meses obter informações sobre o estado de coisas na Europa.


Foi durante o Cerco de Acre que Napoleão recebeu informações sobre a precária situação francesa na Europa: derrotas na Alemanha e na Itália, colapso da República Cisalpina e novos levantes na Vendeia


Após um ataque contra Acre ser rechaçado no dia 10 de maio, Napoleão, vendo que seria impossível pedir reforços à França, decidiu levantar o cerco e voltar ao Egito. Os atacantes saíram à francesa (ba-dum-tss) no dia 20, evitando as armas dos navios ingleses e empregando táticas de terra-arrasada no caminho de volta. Ao chegar em Jafa, Napoleão enfrentou uma situação bastante cruel: o que fazer com os soldados vitimados pela peste que estavam fracos demais para acompanhar o exército? Sua solução foi propagandeada como cruel, mas nada na biografia do homem indica que ela foi tomada com prazer: aproximadamente 50 soldados foram mortos com overdoses de ópio misturadas à comida, para evitar que caíssem nas mãos dos turcos (notórios pelo mau tratamento de prisioneiros).


A derrota no Cerco de Acre encerrou a campanha francesa no Levante e motivou o retorno de Napoleão à França


Os franceses entraram no Cairo no dia 14 de junho, recebidos com uma enorme celebração (que deve ter parecido bastante falsa aos soldados). Quem visse a propaganda poderia até imaginar que o Exército do Oriente fora bem-sucedido em sua expedição. Em parte, até foi: os turcos estavam sem condições de iniciar uma expedição contra o Egito. Mas o sonho final de Bonaparte - invadir a Índia e igualar os feitos de Alexandre - foi por água abaixo. Os soldados rapidamente partiram rumo a Alexandria, onde uma rebelião foi duramente suprimida na Batalha de Abukir.


Vários soldados turcos acabaram se afogando no mar durante a Batalha de Abukir, 25 de julho de 1799


Com o Egito pacificado e protegido de invasões, Napoleão tomou uma importante decisão: abandonar o Exército do Oriente e voltar à França. Seus pensamentos não eram ainda sobre tomar o poder, mas sim ajudar o país contra seus inimigos. Apesar do fracasso em Acre, Napoleão era um propagandista de primeira, e seus jornais garantiram que sua reputação continuasse intacta durante todo o processo: ou seja, a população gostaria de ter seu melhor general (e Napoleão sem dúvidas o era) lutando em casa, não em um canto obscuro do mapa.


Ainda é debatido se Napoleão recebeu uma convocação do governo para retornar ou não, mas o fato é que no dia 22 de agosto Bonaparte e a maior parte de seus oficiais embarcaram rumo à França, deixando o general Kléber no comando do Exército do Oriente. Cabe ressaltar que Kléber não foi avisado de antemão nem da partida, nem do comando, e que ficou bastante enfurecido com a situação toda, chegando a escrever um relatório contra Napoleão para o Diretório..


O general estava voltando para casa. Apesar de não ser esta sua intenção, os dias da Revolução Francesa estavam contados.


À bordo da fragata Murion, Napoleão Bonaparte deixa o Exército do Oriente e ruma em direção a uma França acuada pelos inimigos


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Por Leonardo Mouta

Militar reservista da Força Aérea Brasileira e estudante de engenharia aeroespacial no ITA. Atualmente reside na França, onde participa de um programa de intercâmbio e dupla diplomação. Escreve sobre História militar e História da ciência/engenharia.

 

Fontes:

“Napoleon: A Life”, Andrew Roberts

“Napoleon: On War”, Bruno Colson

“The French Revolution”, Christopher Hibbert

“Napoléon : La Grande Aventure”, revista Le Point

“L’Épopée Napoléonienne”, Jean Tranié

“Intelligence in War”, John Keegan

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