A Vida de Napoleão Bonaparte – Parte 4: Ápice

Introdução

Em 5 de maio de 1821, morreu Napoleão Bonaparte. Não é de se espantar que o bicentenário de sua morte seja marcado por uma espécie de “re-interesse” por este importante personagem, seja nos noticiários, nas conversas ou mesmo nas provas de concursos.


Para aproveitar o “timing”, decidi fazer uma série de textos narrando a vida desta figura, ora amada, ora odiada, mas certamente ímpar. Os adjetivos para descrevê-lo variam dependendo de quem conta a história, indo de “Salvador da Revolução” a “déspota sanguinário” (com o bom, velho e anacrônico “proto-Hitler” não falhando em aparecer).


Apesar dos eventuais juízos de valor, Napoleão foi um divisor de águas na história do mundo, alterando o rumo dos eventos do Brasil à Ásia. Esta afirmação vai além da questão militar ou política: o pensamento Europeu jamais seria o mesmo. A própria estruturação da “ciência militar” como a conhecemos deve suas origens ao “fenômeno napoleônico”. Para além da teoria, Napoleão foi transformado até mesmo em referência cultural, aparecendo no hino da Polônia ou como personagem literário em “Guerra e Paz”.


Não obstante sua importância, pouco se aprende sobre como de fato foram a vida e os atos concretos de Napoleão, o homem de carne e osso. É isto que iremos explorar por aqui. Este texto vai do início do Primeiro Império Francês ao fim da Guerra da Quarta Coligação.


Napoleão I: Imperador dos Franceses


Instauração do Império

Ser proclamado Imperador em uma pequena cerimônia é uma coisa; fazer valer essa proclamação é outra coisa completamente diferente. Não era apenas o sistema político nominal que precisaria ser alterado: toda a cosmovisão francesa - recém saída da Revolução - deveria também acompanhar a transição.


Sem dúvidas, seu maior problema era o exército. Seria difícil vender a ideia de um retorno monárquico ao que essencialmente ainda era o Exército Revolucionário. Para a sorte de Napoleão, entretanto, vários dos comandantes republicanos “linha-dura” (para citar alguns: Kléber, Joubert, Moreau, etc.) estavam ou mortos ou fora do jogo político.


Quanto aos poucos que restavam, Napoleão teve uma ideia para matar dois coelhos com uma cajadada só: ao mesmo tempo em que atrairia, com a promessa de um novo nível de prestígio, o apoio de generais competentes (mas pouco entusiasmados com o novo regime), seria criada a nova aristocracia militar francesa, representativa dos valores do Império. No dia seguinte ao ser proclamado Imperador, Napoleão elevou dezoito generais - dentre aliados e detratores - ao título de “Marechal do Império”.


Marechais do Primeiro Império Francês. Na Promoção do 19 de maio de 1804 (por ordem de antiguidade): Berthier, Murat, Moncey, Jourdan, Masséna, Augereau, Bernadotte, Soult, Brune, Lannes, Mortier, Ney, Davout, Bessières, Kellerman (pai), Lefebvre, Pérignon e Sérurier. Os demais na foto seriam promovidos posteriormente


E o que isso tinha a ver com os valores do Império? Acontece que o título de “marechal” não era propriamente militar, mas honorífico. Vejamos as origens de alguns dos agraciados: em um extremo temos Louis-Alexandre Berthier, oriundo de família antiga e oficial no exército real de Luís XVI; do outro extremo, pode-se ver o caso de Jean Lannes: filho de um mercador, Lannes não recebeu praticamente nenhuma educação formal, mas provou sua competência durante a Revolução. Fica clara, então, a mensagem do Império: a nova aristocracia era baseada no mérito, independentemente das origens. Esta noção de mérito deveria, ao menos em teoria, permear toda a sociedade - não apenas o exército - com o próprio Napoleão fornecendo o maior exemplo.


“Todo soldado carrega um bastão de marechal na mochila” - Dito popular sobre a possibilidade de ascensão social no Império.

Outra mudança no exército foi a criação da célebre Guarda Imperial, uma unidade de elite dedicada à proteção do Imperador, inicialmente contando com 8 mil homens. A Guarda seria usada decisivamente mais de uma vez em batalhas futuras.


A Guarda Imperial: elite do Exército Francês e ponto recorrente na criação do Mito Napoleônico


Havia ainda a questão da simbologia nacional: onde já se viu Império sem símbolos? Bonaparte, após deliberação com seus conselheiros, escolheu dois: para o Império, seria adotada a águia com as asas abertas, relembrando Carlos Magno e o Império Romano; já para a símbolo pessoal de Napoleão foi escolhida a abelha, ligada à Dinastia Merovíngia. É desta época também a primeira distribuição de medalhas da Legião de Honra, a nova ordem nacional francesa, destinada a recompensar serviços - sejam militares ou civis - prestados à pátria. A mensagem dada pela reintrodução das ordens nacionais era clara: saía-se do espírito repúblicano revolucionário e retornava à monarquia. Com a Legião de Honra, vemos mais uma vez o motif de “mérito” que embasava a cosmovisão do Império.


Por outro lado, a República não foi completamente jogada na lixeira, uma vez que ela era necessária para justificar a própria chegada de Napoleão ao poder. Escolher o Chant du Départ como hino do Império, por exemplo, é uma prova clara de que certos aspectos do velho regime - sobretudo a idealização da República e o que pode ser chamado de “ideal republicano” - seriam guardados, transformando o Império Napoleônico em um ente sui generis no campo da história e da filosofia política.


Estabelecida em 1802, a primeira distribuição de condecorações da Ordem da Legião de Honra ocorreu em julho de 1804, no Hôtel des Invalides. A Legião de Honra ainda é a mais alta honraria francesa


Finalmente, havia a questão de uma coroação formal, cujos preparativos começaram antes mesmo que os resultados do (nada fraudado) plebiscito sobre a mudança para o Império fossem anunciados. Em acordo com o Papa Pio VII - cuja presença era necessária para ligar o Império Francês aos grandes Impérios cristãos do passado - a cerimônia foi marcada para o dia 2 de dezembro de 1804, na Catedral de Notre-Dame de Paris. Curiosamente, o Papa impôs uma condição bem particular à sua presença: Napoleão e Joséphine deveriam se casar segundo os ritos católicos (para além da cerimônia civil realizada em 1796), o que foi feito em 1o de dezembro, véspera da coroação.


No dia 2 de dezembro, como planejado, ocorreu a cerimônia de coroação de Napoleão I, que contou com a presença de autoridades civis e militares, cientistas do Institut de France, dignitários estrangeiros, dentre outros. Às 11h45 da manhã, Napoleão e Joséphine entraram na Catedral de Notre-Dame.


É bastante conhecido o fato de Napoleão ter colocado a coroa sobre sua própria cabeça, gesto que representa o triunfo absoluto do self-made man. De fato, ele estava usando duas coroas no dia: uma coroa de louros, lembrando o Império Romano, e a coroa que levantou sobre sua cabeça, uma réplica daquela usada por Carlos Magno. Após sua auto-coroação, Napoleão também coroou Joséphine, ato que foi seguido por uma bênção papal.


“Eu juro preservar a integridade do território da República; respeitar e garantir o respeito às leis da Concordata, da liberdade de crença, da liberdade política, da liberdade civil e da irreversibilidade de venda dos biens nationaux; não aumentar impostos exceto em virtude da lei; manter a instituição da Legião de Honra; e governar apenas segundo o interesse, o bem-estar e a glória do povo francês” - Juramento de Napoleão ao ser coroado.

Acima, o célebre quadro de Jacques-Louis David sobre a coroação


Terceira Coligação

Paralelamente a esta transição, é importante lembrar que a Guerra da Terceira Coligação - declarada pelo Reino Unido em maio de 1803 - ainda estava comendo solta, e não era da personalidade de Napoleão deixar os assuntos militares para lá. Logo após a declaração de guerra, Napoleão ordenou a ocupação do Eleitorado de Hanôver, terra do rei Jorge III.


Apesar do nome dado à guerra, ainda não havia uma coligação montada contra a França: o único país a ter declarado guerra foi o Reino Unido. Essa situação fornecia à França - que sempre encontrava-se lutando em múltiplas frentes - a chance rara de focar suas forças contra um único inimigo. Começaram a ser concebidos planos de invasão das Ilhas Britânicas. Em junho, foram montados cinco grandes campos preparatórios para uma invasão naval.


Campo de Bolonha: um dentre os cinco montados por Napoleão para uma invasão naval do Reino Unido


Mesmo se o Exército Francês tivesse conseguido desembarcar no Reino Unido, haveria pouca chance de vitória (mas este ponto é debatido). De qualquer forma, cruzar o Canal da Mancha era uma impossibilidade, uma vez que a Marinha Francesa, ainda capenga após os expurgos promovidos na Revolução, não tinha a menor chance contra a Royal Navy, que se encontrava em ascensão meteórica desde os tempos de Edward Hawke. Tal era, inclusive, a opinião de todos os almirantes franceses. Assuntos navais, entretanto, sempre foram o calcanhar de Aquiles de Napoleão, e esse delírio de uma invasão continuaria a ser o foco da estratégia francesa durante um bom tempo, basicamente prendendo os dois oponentes em um impasse.


O equilíbrio precário seria quebrado logo após a coroação de Napoleão: em dezembro de 1804, o Reino Unido assinou um tratado militar com a Suécia. A esse seguiu-se, em abril de 1805, um tratado com a Rússia. Começava a tomar forma a Terceira Coligação. O meio que os britânicos encontraram para montar mais uma coligação contra a França foi simples: dinheiro. No caso russo, por exemplo, o governo de Sua Majestade pagaria 1.25 milhão de libras para cada 100 mil homens que o Tsar mobilizasse. O governo britânico conseguiu “mercenarizar” a Europa.


E onde estava a Áustria, o mais constante dos inimigos da França pós-Revolução? Primeiramente, em resposta ao novo status imperial da França, Francisco II - Imperador Romano-Germânico e Arquiduque da Áustria - decidiu declarar que a Áustria também seria doravante um Império (Nota pessoal: isso gera uma confusão dos diabos quando vamos estudar o período, pois o mesmo sujeito era Francisco II, Imperador Romano-Germânico, e Francisco I, Imperador da Áustria. Graças à confusão dos números, já passei um tempo sem saber que os dois eram a mesma pessoa). Para além da briga de títulos, a assinatura de alianças entre a França e Estados do Sacro Império Romano-Germânico não agradou Viena em nada.


Mas a cereja do bolo que acabou por atiçar novamente a ira Habsburgo foi uma alfinetada da parte de Napoleão: ao aceitar o título de Rei da Itália - região considerada um quintal austríaco - Napoleão foi coroado com a Coroa de Ferro da Lombardia, usada por todos os Imperadores Romanos-Germânicos desde Frederico Barbarossa. Depois de um insulto desses, a Áustria, em agosto de 1805, entrou para a Terceira Coligação.


Com a Áustria, a Rússia e a Suécia se preparando para atacar a França, Napoleão encontrou-se obrigado a mudar de estratégia


A situação impôs a Napoleão o abandono de seus planos de uma invasão do Reino Unido. Com a frota francesa, comandada pelo almirante Villeneuve, ancorada na segurança de Cádiz, Espanha (longa história), Napoleão fez os soldados na costa francesa darem meia-volta e partiu em direção à Europa Central, dando início àquela que seria sua campanha mais brilhante.


Uma das razões para a efetividade do Exército francês era a sua velocidade, possível graças ao sistema de corpo de exército introduzido por Napoleão. Cada corpo, comandado por um marechal, era um “mini-exército” independente, com sua própria infantaria, cavalaria, artilharia, transporte, etc. Dividindo dessa forma sua Grande Armée, Napoleão conseguia movimentar seus soldados rapidamente, pivotando-os ou concentrando-os caso surgisse a necessidade. Em 1805, esse sistema permitiu que nada menos que sete corpos de exército - totalizando 170 mil soldados - saídos da costa norte francesa chegassem às margens do rio Reno em 25 de setembro, um tempo impressionante.


Ao mesmo tempo em que o exército francês corria rumo ao leste, as forças austríacas e russas tomavam suas posições. Como parte da estratégia austríaca, 72 mil soldados sob o comando do general Karl Mack invadiram o Eleitorado da Baviera e capturaram a cidade fortificada de Ulm. O plano era aguardar reforços dos russos. Começava a Campanha de Ulm, primeira parte dos engajamentos militares da Guerra da Terceira Coligação.


As forças do general Mack em Ulm faziam parte do chamado “Exército da Alemanha”, sob o comando do arquiduque Ferdinando. O plano austríaco para a região era aguardar a chegada dos russos. A noroeste no quadrante B4: Ulm


Logo após cruzar o Reno, o sistema de corpos permitiu que Napoleão pivotasse seu exército, bloqueando a linha de retirada de Mack. Para impedir que a guarnição inimiga fugisse de Ulm enquanto Napoleão completava sua armadilha, tomando posições estratégicas em torno da cidade, a inteligência francesa, ajudada pelo (ironicamente) notório espião Schulmeister, realizou uma campanha de desinformação que acabou por confundir os austríacos. Quando Mack percebeu o erro, já era tarde demais: Ulm encontrava-se completamente cercada.


Sem a menor chance de resistência, Mack declarou a rendição de Ulm em 20 de outubro. De uma só vez, 20 mil soldados de infantaria, 3300 soldados de cavalaria, 59 peças de artilharia, 300 vagões de munição, 3 mil cavalos e 17 generais foram tirados das contas da Coligação, um golpe seríssimo. Claro que Napoleão inflou esses resultados nos boletins do exército e em suas cartas para casa - ele não sabia não inflar resultados - mas, de qualquer forma, a vitória em Ulm continua sendo uma de suas obras mais inspiradas.


A Rendição de Ulm, em 20 de outubro, foi uma derrota grave para a Terceira Coligação


Por uma ironia cósmica, o fim da Campanha de Ulm, um dos maiores sucessos de Napoleão, coincidiu com uma de suas piores derrotas: em 21 de outubro, ao largo do cabo de Trafalgar, a armada franco-espanhola foi obliterada pela Royal Navy. Napoleão só saberia do desastre quatro semanas depois.


A Batalha de Trafalgar enterrou para sempre a viabilidade de uma invasão francesa do Reino Unido. Mesmo assim, o Imperador - com sua pouca competência para assuntos navais - continuou a gastar quantias assombrosas de dinheiro, tempo e energia na busca de uma igualdade com os ingleses em número de navios, algo que nem mesmo importava.


A Batalha de Trafalgar representou com maestria a culminação de anos de reformas e inovações na Royal Navy


“Napoleão era o mestre da Europa, mas também era nela prisioneiro” - Bertrand de Jouvenel sobre o cenário pós Trafalgar

A verdadeira pergunta é: por que a Batalha de Trafalgar aconteceu? Mais para cima, afirmei que a frota francesa encontrava-se seguramente ancorada em Cádiz. A verdade é que ninguém sabe exatamente a resposta. Aponta-se uma mistura entre ordens confusas deixadas por Napoleão e um desejo do almirante Villeneuve de “mostrar serviço” como a causa da batalha.


A ideia de dar combate não era absurda: a frota combinada de franceses e espanhóis encontrava-se em vantagem contra os navios de Nelson. Os ingleses, entretanto, tinham de sobra algo que faltava aos seus inimigos: experiência. No fim do 21 de outubro, nem um único navio inglês fora perdido (em oposto aos vinte e dois navios inimigos capturados ou afundados). Os comandantes tiveram finais bastante simbólicos: Nelson, o genial almirante que insistia em usar suas brilhosas medalhas no uniforme, foi identificado e morto durante o combate por um atirador francês, tornando-se um mártir da causa inglesa; já Villeneuve, cujo ego levou à morte de mais de 4 mil marinheiros, acabou por suicidar-se em 1806.


Este foi o sinal içado no Victory de Nelson: “A Inglaterra espera que cada homem cumpra seu dever”


Napoleão encontrava-se em marcha rumo a leste para dar batalha ao Exército Russo, que agora recuava. Após a capitulação de Ulm, o caminho até Viena encontrava-se livre. Nas guerras anteriores, a mera ameaça à capital fora o suficiente para garantir a rendição dos austríacos. Desta vez, as autoridades simplesmente abandonaram a cidade, tomada pelos franceses em 13 de novembro. Napoleão transformou o Palácio de Schönbrunn em seu quartel-general. Poucos dias depois, o Imperador finalmente ouviu as notícias sobre a derrota em Trafalgar, instaurando uma censura completa sobre o assunto na imprensa francesa.


Napoleão recebendo as chaves de Viena. Foi a primeira vez desde o advento da Revolução que a capital Habsburgo caiu em mãos francesas


Deslocando-se ainda mais, Napoleão cruzou a fronteira da atual República Tcheca, capturando a cidade de Brünn (junto com as provisões ali contidas). Sua situação não era boa, pois a Grande Armée encontrava-se cercada: no sul, os exércitos austríacos remanescentes ainda combatiam as forças do marechal Masséna; no norte, os prussianos estavam cada vez mais ameaçadores; no leste, os soldados do general Kutuzov avançavam rapidamente. O avanço também foi custoso em número de soldados, deixados ao longo do caminho para proteger as linhas francesas de suprimentos e para ocupar as fortificações conquistadas. Em outras palavras: a fraqueza da metodologia de Napoleão era sua sensibilidade ao atrito. O Imperador precisava dar um fim rápido à guerra.


A longa marcha de Ulm a Austerlitz deixou os franceses em uma situação complicada. Autoria: Andrew Roberts


Foi saindo de Brünn que Napoleão viu aquele que seria o palco da maior vitória militar de sua carreira: um campo perto da então cidade de Austerlitz. Aquela posição seria perfeita para se entrincheirar e aguardar os russos, onde estes - segundo os planos do Imperador - seriam aniquilados.


“Senhores, examinem este terreno atentamente. Ele será um campo de batalha e vocês terão aqui um papel a desempenhar” - Napoleão para seu Estado-Maior ao ver o campo de Austerlitz

No lado inimigo, concentrado em Olmütz, as autoridades matutavam quanto ao que fazer. Os generais em Olmütz encontravam-se sob o comando pessoal dos Imperadores Francisco I da Áustria e Alexandre I da Rússia. Alexandre I favorecia tomar a ofensiva, indo contra os conselhos de seu principal comandante, o sexagenário general Kutuzov. Quando emissários austríacos - engenhosamente enganados por pequenos “teatros” armados por Napoleão - relataram aos seus superiores que a posição francesa era fraca, foi batido o martelo em favor de um ataque. O general austríaco Weyrother ficou encarregado de elaborar os detalhes do plano.


A estratégia de Napoleão foi simplesmente magnífica: fingindo fraqueza, ele atraiu os exércitos inimigos para um campo de batalha escolhido a dedo e onde, pouco a pouco (para não levantar surpresas), ele concentrou as forças francesas antes da batalha. Para adoçar ainda mais a armadilha e garantir um ataque dos aliados, Napoleão abandonou as colinas Pratzen, ponto estratégico central no campo de Batalha de Austerlitz.


Na noite do 1o de dezembro, véspera da Batalha de Austerlitz, Napoleão passou de acampamento em acampamento para verificar o estado de seus soldados. Ao ver o Imperador tropeçar em um tronco de árvore, um granadeiro decidiu acender uma tocha para iluminar seu caminho. Rapidamente, o gesto se propagou. À luz das tochas e sob gritos de “Vive l’Empereur!”, Napoleão terminou de verificar a preparação para os combates.


Depois de terminar os preparativos para o combate, Napoleão - acordado há mais de 24 horas - achou por bem tirar uma soneca


Na madrugada do 2 de dezembro, aniversário da coroação, as forças francesas tomaram suas posições em silêncio e escondidas por uma névoa espessa. Os soldados foram dispostos de tal forma a aparentar uma fraqueza no flanco direito do exército. Quando os aliados se lançassem contra esse ponto, Napoleão começaria um ataque para tomar as colinas Pratzen, partindo as forças inimigas ao meio.


A situação na véspera da Batalha de Austerlitz


Os aliados caíram na armadilha: às 8h da manhã, forças russas (que foram as mais ativas na batalha do lado aliado) deixavam as colinas Pratzen para atacar o flanco direito francês, que bravamente segurou sua posição. Às 10 horas, quando o sol dispersou a névoa, nada restou ao general Kutuzov além de observar horrorizado enquanto 24 mil franceses se lançavam contra as colinas Pratzen, partindo os aliados em dois. O quartel-general do Tsar Alexandre foi tomado às 11 horas.


Ao lançarem seus soldados contra o flanco direito francês, os aliados realizaram os desejos de Napoleão, cujo contra-ataque partiu as forças inimigas em duas


No início da tarde, não havia dúvidas quanto ao resultado da Batalha de Austerlitz, uma vez que as forças inimigas encontravam-se em franca retirada. Napoleão, entretanto, não estava em busca de uma vitória, mas de uma surra. Virando os soldados da colina Pratzen contra os russos ao sul - os mesmos que foram enviados para quebrar seu flanco direito - Napoleão conseguiu cercar os inimigos que ali se encontravam. Encurralados, os soldados tentaram fugir através do lago congelado, mas a artilharia francesa abriu fogo contra o gelo, o que resultou no afogamento de vários desses coitados.


Teoricamente, os aliados poderiam ter continuado a guerra contra os franceses, mas os nervos dos austríacos e dos russos cederam nesse dia. O exército de Alexandre recuou até a Hungria depois da derrota. Logo após a vitória em Austerlitz, o príncipe João de Liechtenstein foi ao quartel-general de Napoleão para dar início às negociações. Com uma performance digna de entrar para a História - e com o toque poético de tê-la feito no aniversário de sua coroação - Napoleão havia vencido a Guerra da Terceira Coligação.


General Rapp apresenta a Napoleão o príncipe russo Repnin, um dos 20 mil russos feitos prisioneiros em Austerlitz. A vitória francesa foi acachapante e tornou-se um símbolo nacional que perdura até os dias atuais


Por razões evidentes, a Batalha de Austerlitz também é conhecida como “Batalha dos Três Imperadores”


“Venci os Exércitos Russo e Austríaco, comandados pelos dois Imperadores. Estou um pouco cansado” - Carta de Napoleão a Joséphine após a vitória em Austerlitz

Um Breve Intervalo e uma Breve Dinastia

Quando os aliados viram o tamanho do desastre em Austerlitz, não sobrou muita esperança além de uma trégua. Na manhã seguinte à batalha, o Imperador Francisco em pessoa foi atendido em uma audiência particular com Napoleão, descrita como “muito cordial” por aqueles presentes.


Imperador Francisco, príncipe João de Liechtenstein e Napoleão Bonaparte: discussão de termos pós Austerlitz


Com os prussianos - que não se juntaram à Terceira Coligação, mas que eram sempre uma ameaça em potencial - foi assinado o Tratado de Schönbrunn em 15 de dezembro, que colocava França e Prússia do mesmo lado. Por fim, a paz com os austríacos chegou no dia 27 de dezembro, com a assinatura do Tratado de Pressburg. Esse tratado, cujos termos foram bastante duros para a Áustria (tanto financeira quanto politicamente), mais uma vez falava em amizade eterna. Dessa vez, os próprios envolvidos sabiam que o acordo não duraria.


Estátua de Napoleão no Museu dos Invalides, feita com o ferro de canhões inimigos capturados nas campanhas de 1805


Houve até mesmo a chance de uma paz com o arqui-inimigo da França, o Reino Unido. Com a morte de William Pitt em janeiro de 1806, subiu ao poder o governo de William Grenville, cujo Secretário de Assuntos Estrangeiros, Charles James Fox, era simpático ao governo Napoleônico. Negociações secretas foram iniciadas, mas estagnaram com a morte de Fox no fim de 1806. Valeu a tentativa, de qualquer forma.


Como nem todos os inimigos franceses chegaram a assinar um tratado de paz (podemos citar aqui a Rússia e o Reino Unido), é difícil determinar quando acabou a Guerra da Terceira Coligação e quando começou a Guerra da Quarta Coligação. Pode-se, entretanto, identificar um período entre a vitória em Austerlitz (dezembro 1805) e o recomeço de hostilidades (outubro de 1806) quando Napoleão, aproveitando a pausa, dedicou-se mais a questões políticas e financeiras que a questões militares. Dentre os principais problemas do período destaca-se a questão dinástica.


O Tratado de Pressburg confirmou Elisa Bonaparte na chefia no Principado de Luca e Piombino (Toscana) e sua irmã Pauline - célebre por seus casos de adultério - encontrava-se casada na realeza italiana. Até seu enteado, Eugène de Beauharnais, ganhou uma boquinha, sendo nomeado Vice-Rei da Itália em 1805. Mas Napoleão ainda tinha mais irmãos (e outros familiares) para exportar aos tronos europeus. Suas investidas para estabelecer uma dinastia começaram contra Nápoles.


Napoleão tinha ódio pessoal da Rainha Maria Carolina (a quem ele se referia como “aquela p…”). A Rainha, apesar de ter assinado um tratado de neutralidade com os franceses em setembro de 1805, acabou por se aliar à Terceira Coligação na guerra contra a França. Sem encontrar nenhuma resistência da parte das outras potências, Napoleão simplesmente anunciou, em fim de 1805, que a dinastia de Nápoles deixava de existir, enviando as forças do marechal Masséna para ocupar a região (o que levou ao surgimento de guerrilhas bastante violentas na região de Calábria). Com a fuga dos Bourbon, Napoleão ofereceu a coroa da região ao seu irmão Joseph, que se tornou Joseph I de Nápoles em março de 1806.


Após Joseph, foi a vez de Louis Bonaparte ganhar seu reinado, sendo coroado Rei da Holanda em junho de 1806, e, em julho de 1807, o (futuro) Reino de Vestfália seria oferecido a Jérôme Bonaparte. Napoleão também criou, por meio de casamentos arranjados, vínculos pessoais com as nobrezas da Baviera, de Baden e de Württemberg, regiões de importante posição estratégica. Napoleão começou a se preocupar até mesmo com a continuação de sua linhagem direta, uma vez que Joséphine não podia mais ter filhos. Tendo em vista que Napoleão concebeu mais de um filho ilegítimo com suas amantes - chegando até mesmo a reconhecer sua paternidade de um deles e provando assim que não era infértil - o Imperador começou a pensar seriamente na possibilidade de contrair um novo matrimônio.

Brasão de Armas da Casa Bonaparte, cujos membros ascenderam a diversos tronos da Europa


De todos os erros cometidos por Napoleão, colocar seus familiares nos tronos europeus foi um dos mais graves. A verdade é a seguinte: da família Bonaparte, só quem tinha miolos mesmo era Napoleão. Não é que os outros fossem ruins, mas estavam claramente aquém dos cargos aos quais foram alçados, ainda mais quando se leva em conta o caos político da Europa no início do século XIX. Essa política Imperial ainda gerou um atrito desnecessário com a Igreja Católica: o Papa Pio VII negou a legitimidade de Joseph como Rei de Nápoles e decretou que o novo casamento dinástico do divorciado Jérôme ia contra a Lei Canônica.


Falando em religião, o ano de 1806 também viu a assinatura de uma das leis mais polêmicas da Era Napoleônica: o “Decreto dos Judeus e da Usura”. O decreto acusava os judeus de “ganância injusta” e de não possuírem “sentimentos de moral civil”, algo bem pouco característico para Napoleão, até então considerado um aliado do Povo de Israel - de fato, durante suas campanhas anteriores, Napoleão encerrou a prática de “guetos” em várias cidades e aboliu a obrigatoriedade do uso da Estrela de Davi. O Imperador convocou um Grande Sinédrio para discutir certas questões sobre as comunidades judaicas na França. As autoridades judaicas conseguiram mudar a opinião de Napoleão, que chegou a declarar o Judaísmo uma das três religiões da França, mas esse decreto marca o início de uma relação bastante conturbada, que acabaria por culminar no “Decreto Infame” de 1808 (que será tratado em mais detalhes no próximo texto).


O Sinédrio de 1807, convocado para discutir a situação dos judeus franceses


Finalmente, em termos políticos, não poderíamos deixar de falar do evento mais importante a ocorrer como consequência da Guerra da Terceira Coligação: o fim do Sacro Império Romano-Germânico. A vitória francesa nesse último conflito neutralizou (pelo menos por enquanto) o poder austríaco sobre o mundo germânico. Com isso, em julho de 1806, Napoleão criou a Confederação do Reno, um aglomerado de Estados sob a tutela francesa (Napoleão recebeu, inclusive, o título de “Protetor da Confederação”). Evidentemente, a Áustria e a Prússia não foram convidadas.


A Confederação do Reno em 1806: uma união que chegou a contar com quase 40 Estados


Com esses vários Estados alemães - todos membros do Sacro Império Romano-Germânico - abandonando suas filiações originais para se juntarem à Confederação, o Império simplesmente perdeu sua razão para existir. Em agosto de 1806 o Imperador Francisco II abdicou seu cargo, encerrando com uma canetada os quase mil anos de existência do Império fundado por Carlos Magno. Seu título agora seria apenas Francisco I da Áustria.


Declaração de Abdicação de Francisco II, Imperador Romano-Germânico. Segundo consta nos escritos de Goethe, o povo não ligou muito para o fim do Império


A existência da Confederação do Reno no quintal da Prússia - colocando mais de 60 mil soldados alemães sob o comando de Napoleão - desagradou profundamente a corte de Frederico Guilherme III. Apesar de a Prússia ter permanecido à margem durante a Guerra da Terceira Coligação, a aristocracia - incluindo a Rainha, anti-napoleônica até a raiz dos cabelos - pressionava o Rei para que uma guerra contra a França fosse declarada, ignorando o tratado de paz recém-assinado. Encontrava-se agora o pretexto para tal. Pretexto ainda melhor surgiu em agosto de 1806 quando um editor anti-napoleônico (Johann Palm) foi preso na neutra Nuremberg. Um ultimato foi enviado a Napoleão no mesmo dia.


Oficiais prussianos afiam suas espadas nos degraus da embaixada francesa em Berlim. O desejo de uma nova guerra contra a França Napoleônica era forte no exército


Napoleão não desejava nem um pouco uma nova guerra, uma vez que a Prússia provavelmente se aliaria às outras potências. Suas instruções aos membros do corpo diplomático francês foram para aceitar todo tipo de compromisso viável. Mas Napoleão também era realista e sabia que um recomeço de hostilidades era extremamente provável, o que o levou a deixar seu exército em plenas condições para realizar um ataque. No fim das contas, infelizmente, não houve o que fazer: no dia 7 de outubro a Prússia declarou guerra contra a França, entrando em uma coligação com a Rússia e o Reino Unido três dias depois. Começava a Guerra da Quarta Coligação. Essa não era mais, entretanto, a formidável Prússia de Frederico II, o Grande. Frederico Guilherme III estava prestes a se meter em uma fria.


Quarta Coligação

A Prússia, ao declarar guerra contra os franceses, queimou a largada, não coordenando suas operações com os outros aliados. Na prática, isso significou que o Exército Prussiano, sob o comando do veteraníssimo duque de Brunswick, deveria enfrentar a Grande Armée - aproximadamente 200 mil homens - praticamente sozinho. A estratégia de Napoleão foi construída em torno de uma marcha para Berlim e começou com uma invasão da Saxônia em outubro de 1806, avançando em três colunas e através de estradas cuidadosamente mapeadas em antecedência. O primeiro combate entre os exércitos aconteceu logo no dia 10, na Batalha de Saalfeld.


Nesse início de campanha, a inteligência francesa errou sistematicamente, múltiplas vezes se confundindo quanto à posição do Exército Prussiano. Quando Napoleão, no dia 13, foi informado que a força de Lannes entrara em combate na cidade de Jena, o Imperador achou que fora encontrado o núcleo do Exército Prussiano, ordenando que os corpos de exército de Davout e Bernadotte se movessem via Naumburg a fim de atacarem o flanco esquerdo inimigo enquanto o resto da Grande Armée se concentraria em Jena.


Essas ordens quase custaram a guerra a Napoleão. Na verdade, o Imperador entendeu tudo errado: a força prussiana em Jena era apenas a retaguarda. O núcleo do Exército Prussiano - quase 60 mil homens - estava indo de encontro ao 3o Corpo comandando por Davout, com apenas 27 mil soldados. Tudo isso enquanto o 1o Corpo de Bernadotte não se encontrava em canto algum, sabe Deus o porquê.


As disposições logo antes da Batalha de Jena-Auerstedt. Davout, sem saber, estava levando seus soldados para um confronto direto com o núcleo do Exército Prussiano


O episódio que ficou conhecido como Batalha de Jena-Auerstedt começou na manhã do dia 14 de outubro de 1806, com o ataque das forças francesas em Jena. Apesar da feroz resistência dos defensores, a vitória francesa em Jena estava clara já no início da tarde, com o Exército Prussiano debandando caoticamente e sendo perseguido por mais de seis milhas pela cavalaria de Murat.


Uma bandeira prussiana capturada em Jena


Foi só após o fim da batalha em Jena que Napoleão percebeu que o exército derrotado era apenas a retaguarda da força principal. Sua única sorte foi que ele escolhera justamente Davout - o mais competente de seus subordinados, apelidado de “O Marechal de Ferro” - para a luta que acontecia ao norte, nas proximidades de Auerstedt. Aproveitando a hesitação dos prussianos, o marechal conseguiu repelir os ataques inimigos, cercá-los e vencê-los, mesmo em desvantagem de quase dois para um, uma vitória digna dos livros de História (e reconhecida como tal pelo Imperador). Enquanto Davout recebia seus merecidos aplausos, Bernadotte foi objeto da ira do alto comando e por pouco não se tornou sujeito de uma corte marcial.


“Diga ao marechal que ele, seus generais e seus soldados conquistaram minha gratidão eterna” - Napoleão sobre a vitória de Davout em Auerstedt

Do lado prussiano as derrotas foram irreparáveis, com o próprio duque de Brunswick, inimigo francês desde os primeiros dias da Revolução, vindo a falecer de ferimentos sofridos em Auerstedt. O colapso total do exército logo seguiu, mas não sem luta: as forças do general Blücher (guardem esse nome, porque ele voltará no futuro) só se renderam após ficarem sem munição. A última capitulação prussiana foi em Magdeburg, entregue ao marechal Ney no dia 11 de novembro. Mesmo antes da capitulação completa do exército, as forças francesas conquistaram Berlim, entrando na capital prussiana no dia 25 de outubro. Evidentemente, a vanguarda do desfile foi concedida aos soldados de Davout.


Após a vitória em Jena-Auerstedt, forças francesas tomaram Berlim, capital da Prússia. Os mesmos oficiais que meses antes afiavam suas espadas foram desfilados frente à embaixada francesa


Foi durante sua estadia em Berlim que, em novembro de 1806, Napoleão instaurou aquilo que seria a causa de sua ruína: o Sistema Continental. O chamado “Decreto de Berlim”, justificado como uma resposta às leis britânicas que impuseram um bloqueio das costas europeias, tinha por objetivo atacar a primazia comercial do Reino Unido, negando o acesso aos mercados europeus ao país.


Napoleão nunca entendeu realmente o Reino Unido. A “nação de lojistas” conseguiu encarar as dores do Sistema Continental muito melhor que a França. A medida, no fim das contas, foi um tremendo tiro no pé, alienando a classe média francesa - um dos principais grupos de apoio de Napoleão - que foram duramente afetados pela proibição do comércio com os ingleses. Para além de tudo isso, o Sistema Continental era simplesmente inviável de ser implementado, uma vez que não havia a menor chance de a Marinha Francesa conseguir policiar a costa europeia inteira. Em suma, vemos aqui o nascimento do sistema que, em vez de dobrar a Inglaterra e forçar a paz, acabou por trazer o fim do Império Francês. Esses problemas, entretanto, ainda estavam no futuro: a questão urgente era vencer a Guerra da Quarta Coligação.


Os prussianos, embora vencidos, não se renderam. Frederico Guilherme III chegou até mesmo a recusar uma proposta de paz feita por Napoleão, preferindo recuar rumo a leste para Königsberg, onde aguardaria reforços russos. Preferindo interceptar os oponentes a esperar sentado, Napoleão deu ordens para que seu exército partisse rumo ao Vístula, dando início à chamada Campanha da Polônia.


O nome para a campanha merece uma pequena explicação: na verdade, a Polônia tinha sido varrida do mapa após a sua Terceira Partição, em 1795; a chamada “Campanha da Polônia” foi travada, na verdade, na parte leste da Prússia. A ideia de uma Polônia independente, todavia, ainda era forte na região, sentimento esse que seria plenamente explorado por Napoleão, que se mostrava como defensor da Polônia contra os conquistadores prussianos e russos e cujo exército incorporou diversos poloneses em suas fileiras. O Imperador francês foi até mesmo recebido sob vivas da população ao entrar em Varsóvia, em dezembro de 1806.


A Grande Armée encontrava-se agora frente a frente ao Exército Russo, desta vez comandado pelo conde Bennigsen. No dia de Natal, o Imperador lançou uma ofensiva para tentar cercar o exército inimigo, mas o frio e a lama reduziram o maior trunfo francês - a velocidade - resultando no fracasso da ofensiva. Como a chegada do inverno impossibilitava novas operações, os dois lados montaram acampamento. A verdade é que o descanso era necessário, uma vez que o Exército Francês encontrava-se em frangalhos a essa altura do campeonato.


“Nunca o Exército Francês esteve tão miserável” - Barão Percy, cirurgião militar, sobre o estado das tropas em fim de 1806

Napoleão teria preferido deixar seu exército em paz nesse momento, mas as circunstâncias o impediram. Por um golpe de sorte, as forças do marechal Ney descobriram que os russos montavam uma gigantesca ofensiva. Napoleão, agora informado dos movimentos de seu oponente, tentou montar uma armadilha para cercar o Exército Russo. A sorte, entretanto, funciona para os dois lados: um mensageiro que carregava as ordens de Napoleão foi capturado pelos russos, o que revelou todos os planos do Imperador. Bennigsen, agora com a vantagem do conhecimento, decidiu recuar rumo ao norte com os franceses nos seus calcanhares, mas foi obrigado a parar: recuar mais ainda significaria entregar a cidade de Könnigsberg. Os dois exércitos deram batalha em Eylau, no início de fevereiro de 1807.


Movimentações dos Exércitos Francês e Russo, levando à Batalha de Eylau


Disposição das forças na Batalha de Eylau. A luta pelo controle da igreja da cidade - situada em um ponto vantajoso - foi árdua. Autoria: Andrew Roberts


Eylau foi uma coisa horrorosa. Durante dois dias (7 e 8 de fevereiro) os dois exércitos se trucidaram em meio a uma nevasca. As condições climáticas estavam tão ruins que Napoleão quase foi capturado e Augereau, já bastante doente, liderou seus soldados através de um caminho errado, dando direto de cara com uma bateria russa, o que resultou no completo massacre da unidade.


Após dois dias de luta e com a falha de Augereau, Napoleão estava em apuros. Quem acabou por salvar o dia foi seu cunhado, o extravagante (mas estupidamente bravo) marechal Murat, responsável por liderar uma carga de cavalaria - uma das maiores da história - que quebrou o moral russo. Na noite do segundo dia de batalha, Bennigsen, com pouca munição e vendo a chegada de reforços franceses, bateu em retirada.


A carga liderada pelo marechal Murat conseguiu conter os russos


Eylau foi uma vitória francesa apenas tecnicamente, já que estes foram os últimos a sobrarem no campo. A quantidade de baixas (aproximadamente um terço de cada exército, contando mortos, feridos e prisioneiros) para tão pouco ganho acabou sendo mascarada nos boletins de ambos os lados. A batalha, a primeira liderada pelo Imperador a durar mais de um dia, mostrou uma prévia da escalada de violência que ocorreria nos anos subsequentes das Guerras Napoleônicas.


O custo em vidas foi tão alto em Eylau que algumas fontes relatam terem visto Napoleão chorar


Após Eylau, o Exército Francês não tinha a menor condição de perseguir os russos, o que os impediu de explorar a vitória obtida. Podia-se, entretanto, resolver um problema que fora deixado de lado: no flanco esquerdo francês, a cidade de Danzig, porto de alta importância, fora deixada sob o controle prussiano, o que significava que um desembarque inimigo era uma possibilidade a ser considerada. Napoleão, cuja convocação dos conscritos da turma de 1808 permitiu a formação de um novo corpo de exército, entregou ao marechal Lefebvre a tarefa de sitiar Danzig, que se rendeu em maio de 1807. Lefebvre inicialmente ficou furioso ao receber como presente pela vitória uma mera caixa de chocolates, mas sua raiva passou quando, ao abri-la, percebeu que o Imperador enviara-lhe 300 mil francos.


O fim do Cerco de Danzig, em 24 de maio de 1807, eliminou o perigo de um desembarque inimigo no flanco de Napoleão


Com o fim do inverno, a chegada dos reforços e a queda de Danzig, Napoleão encontrava-se pronto para recomeçar suas ofensivas. Foi Bennigsen, entretanto, quem atacou primeiro, lançando-se em Gutstadt no início de junho. Napoleão reagiu colocando todos seus Corpos de Exército em movimento. Após alguns combates - incluindo a árdua Batalha de Heilsberg - o surpreendente aconteceu: os dois exércitos se perderam de vista. Por causa desse desencontro, as forças do marechal Lannes, inicialmente apenas em missão de reconhecimento, tiveram uma grande surpresa ao darem de cara com o Exército Russo inteiro, concentrado próximo à cidade de Friedland.


Movimentações preparatórias para a Batalha de Friedland


Para atacar as forças de Lannes, Bennigsen deveria cruzar o rio Alle. Tendo em vista que ele precisaria esmagar um único corpo de exército, o general calculou que havia tempo suficiente para cruzar o rio, vencer o inimigo e retornar à outra margem antes da chegada da Grande Armée. No dia 13 de junho, Lannes conseguiu segurar os russos no lugar por mais de nove horas enquanto reforços chegavam, apesar de ser forçado a entregar o controle da cidade de Friedland aos russos. Ao longo da noite do 13 e da manhã do 14, Bennigsen colocou em prática seu plano, ordenando que seu exército cruzasse o rio e dando início à Batalha de Friedland.


Subestimar a velocidade de marcha dos franceses - principalmente agora que não havia mais neve ou lama - foi um erro de principiante. Ao ordenar que seus homens cruzassem o rio, Bennigsen colocou-os em uma armadilha mortal: se houvesse qualquer problema com as pontes, não haveria para onde recuar. Com a chegada de cada vez mais reforços franceses, ficou claro que uma vitória russa seria impossível: o máximo a se esperar era um empate, dando tempo para que o exército pudesse se retirar à noite.


Disposição das forças da Batalha de Friedland. Com o rio Alle às suas costas, os russos estavam a um passo de serem encurralados. Autoria: Andrew Roberts


“Não veremos o inimigo cometer um erro como este duas vezes” - Napoleão ao chegar em Friedland

Quando Napoleão chegou ao campo de batalha, por volta de meio-dia, ele imediatamente percebeu a besteira que os russos fizeram. O Imperador estava tão certo da vitória que aceitou até mesmo uma trégua breve para que os soldados pudessem se refrescar. Com o recomeço da luta, Napoleão imediatamente ordenou um ataque destinado a empurrar os russos rumo ao rio.


Bennigsen, ao se dar conta da situação, imediatamente despachou ordens para uma retirada, mas era tarde demais. Com as pontes em chamas, as forças russas encontraram-se isoladas na península e à mercê da artilharia francesa; inúmeros soldados se afogaram no Alle tentando fugir.


A Batalha de Friedland selou a vitória francesa na Guerra da Quarta coligação. Curiosamente, a batalha aconteceu no aniversário da Batalha de Marengo: 14 de junho


Apesar de o Exército Russo não ter sido exatamente aniquilado, estava claro que não havia mais chance de vitória contra os franceses, ao ponto de Napoleão nem mesmo ordenar uma perseguição ao inimigo, que recuou para trás da fronteira russa. Em 19 de junho, o Tsar Alexandre I enviou um emissário para discutir termos de um armistício com Napoleão. Os prussianos, sem a menor chance de continuarem a campanha sozinhos, se renderam “por tabela”. Após o Imperador concordar com um cessar-fogo provisório, foi organizado um encontro entre Napoleão e Alexandre. A reunião dos dois em Tilsit merece um capítulo próprio.


Os Tratados de Tilsit

O lugar escolhido para o encontro foi, no mínimo, inusitado: uma jangada no meio do rio Niemen, entre Piktupönen (Rússia) e Tilsit (Prússia), cidades onde encontravam-se respectivamente os russos e os franceses. O primeiro encontro dos Imperadores, em 27 de junho de 1807, foi um momento histórico. Cabe ressaltar que Frederico Guilherme III sequer foi convidado para o primeiro dia de reunião, mostrando que a Prússia deveria se submeter às decisões dos “cachorros grandes”.


Encontro de Napoleão e Alexandre I na jangada do Niemen


Em termos pessoais, os dois governantes pareciam ter começado com o pé direito, conversando por longas horas sobre os mais variados assuntos, trocando condecorações e com cada um escrevendo cartas para casa louvando a personalidade do outro. Uma amizade entre os dois era impossível, mas talvez a “boa impressão” tenha ajudado a suavizar os termos de paz impostos à Rússia. De fato, a Rússia não precisou realizar nenhuma grande concessão nos chamados Tratados de Tilsit, exceto uma: o Tsar se comprometeu a ingressar no Sistema Continental, decisão que traria consequências muito sérias no futuro.


Já a Prússia não teve a mesma sorte. A partir de suas terras orientais - boa parte delas obtidas durante a Segunda e Terceira Partições da Polônia - Napoleão determinou a criação do Ducado de Varsóvia, algo visto pelos poloneses como um passo para a reconstrução do país. A título de curiosidade, vale dizer que Napoleão já tinha encontrado para si uma amante polonesa, a qual ele conhecera durante sua estadia em Varsóvia. Também de terras prussianas, dessa vez no ocidente, Napoleão criou o Reino da Vestfália, entregue a seu irmão Jérôme. Fora essas humilhações, a Prússia ainda deveria pagar 120 milhões de francos em despesas de guerra e se juntar ao Sistema Continental.


O Ducado de Varsóvia: cortado de terras prussianas e entregue ao governo do Rei da Saxônia, este protetorado napoleônico seria causa de sérios atritos com as demais potências


É evidente que a Prússia guardaria rancor desses tratados e se voltaria contra Napoleão na primeira oportunidade. Para o Imperador, isso pouco importava: sua estratégia nos Tratados de Tilsit era criar uma inimizade entre as demais potências, de forma que elas passassem mais tempo brigando entre si que contra a França. Efetivamente dividindo a Europa em zonas de influência francesa e russa, a Prússia seria um país para sempre dividido quanto a qual lado tomar.


Napoleão, Alexandre I, Rainha Luísa da Prússia (que realmente odiava Napoleão) e Frederico Guilherme III. A Rússia conseguiu se sair bem nos Tratados de Tilsit enquanto a Prússia foi punida sem dó


Após concluir os tratados, Napoleão retornou a Saint-Cloud no fim de julho de 1807, depois de passar mais de 300 dias fora da França. Vitorioso nas Guerras da Terceira (1803-1805) e Quarta (1806-1807) Coligações, é possível dizer que Napoleão I, Imperador dos Franceses, era o senhor supremo da Europa, atingindo o ápice de seu poder. Suas vitórias, entretanto, continham as sementes de sua própria destruição: ao longo dos próximos anos de seu reinado, uma série de erros políticos e militares levariam ao fim da Era Napoleônica.


Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seu autor. As possíveis opiniões aqui emitidas não correspondem necessariamente àquelas do site.

 

Por Leonardo Mouta

Militar reservista da Força Aérea Brasileira e estudante de engenharia aeroespacial no ITA. Atualmente reside na França, onde participa de um programa de intercâmbio e dupla diplomação. Escreve sobre História militar e História da ciência/engenharia.

 

Fontes:

“Napoleon: A Life”, Andrew Roberts

“Napoleon: On War”, Bruno Colson

“The French Revolution”, Christopher Hibbert

“L’Épopée Napoléonienne”, Jean Tranié

"1789-1815: Révolution, Consulat et Empire", Biard; Bourdin; Marzagalli

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