Apologia da Teoria Camiliana da História


É preciso dizer, João Camillo de Oliveira Tôrres é incrível e deve ser reverenciado por sua profícua inteligência, que se demonstra de maneira bastante clara na sua obra menos conhecida “Teoria Geral da História”, da qual faço virulenta apologia.


Quando não é ostracizado, Oliveira Tôrres é identificado apenas como um autor conservador, nada de muito especial neste nosso país em que a política está sempre em primeiro momento. Esquece-se a parte em que o homem se coloca como um filósofo da História e nos presenteia com a mais completa teoria de análise do passado. Lamentável. Suas teses poderiam ajudar os historiadores a produzir obras extremamente competentes, dando à sociedade textos que lhe ajudariam a nortear bem a sua posição diante do mundo.


João Camillo procura pôr o indivíduo centrado na situação a qual lhe aparece de modo objetivo. «Quando o homem», diz ele, «toma consciência de si, quando procura sondar-se, descobre que existe, que sua existência está situada em mundo e que ele se conhece e à situação e que esta não lhe é indiferente e que se modifica por sua ação».


Porém, ao inserir o indivíduo numa situação, num contexto, não o reduz a uma massa de carne que se move somente ao sabor dos estímulos da sociedade, dos discursos, da mentalidade – como talvez gostaria de dizer Marc Bloch –, ao contrário critica qualquer negação do indivíduo, e crava que a ação humana depende da soma entre a singularidade da pessoa mais a situação objetiva, isto é «todos os atos do homem exprimem o seu caráter e a situação objetiva em que se encontra».


Decorre desta soma de fatores atitudes necessárias como «viver nesta situação, conhecê-la, dar-lhe um valor, modificá-la». Somente indivíduos dão valor e podem agir, como somente uma pessoa consciente pode conhecer algo. Aqui entra também uma das mostras de genialidade de Oliveira Tôrres, ele analisa a partir das causas aristotélicas, em que as situações seriam as causas materiais – fatores estruturais – e a ação do indivíduo a causa eficiente – fator livre.


A situação é o dado, é o que existe; a ação do ser é a vontade de modificação, a transformação, movida por um desejo de ter uma nova situação – causa final –, expressa por ideias e valores – causa formal. A História é a ciência das modificações dentro das culturas, das mudanças de situações, um evento só é histórico quando interfere na vida na comunidade. Um professor passeando de carro não é histórico, mas Francisco Ferdinando desfilando em um carro pelas ruas de Sarajevo antes de ser morto é. E se aquele passeio fosse evitado, talvez a Guerra das guerras não teria acontecido entre 1914 e 1918.


Esta postura diante da Ciência Histórica eu nunca vi. Pelo contrário, os atos para algumas correntes são apenas expressão de uma mentalidade, seja social, seja de classe, com o indivíduo sendo visto como um «aborto» do meio, massificado pelas ideologias, sem liberdade para agir. Ou, nas palavras de Oliveira Tôrres, «a tendência dominante, em muitos setores, procura negar a realidade ontológica e axiológica do indivíduo. Para certas posições, o indivíduo é como se não existisse.»


E o mestre mineiro ficou esquecido. Sua teoria não é conhecida por universitários, ávidos em pensar que lêem Marx, lendo apostilas. Teriam coragem de enfrentar 683 páginas? A posição política deve ter influenciado. As pessoas tendem a perder, no Brasil, o saber por causa do grupo. E o grupo não lê os conservadores. Ou terá sido o aspecto religioso de sua obra? João Camillo não nega Deus. Pelo contrário, diz que «a História se faz com atos – mas os atos sem a prece pouco são».


Deus está em toda a perspectiva de sua produção. A história tem um fim, que é a volta de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não um fim de «finalidade» apenas, mas também de consumação. O tempo acabará. A história percorreu milénios, talvez percorrerá mais outros, porém é certo que o Filho do Homem volverá em Glória. Disso Oliveira Tôrres não abriu mão. Como não abriu mão de dizer que «o homem somente se torna mais especificamente humano na medida em que participa da vida divina».


Mas é tempo de resgatar o trabalho e a memória, no âmbito da filosofia, de um profissional dedicado e um intelectual sério, profícuo. Além do homem que elogiou o conservadorismo, houve um doutrinador que deu a oportunidade de o indivíduo agir diante da situação posta. Eu sei, João Camillo de Oliveira Tôrres é grande demais para academia, quando deveria ser o normal, mas isto porque os acadêmicos são pequeninos. Conheço algumas almas que conseguem ser maiores que seus ambientes e podem se valer de quem lhes foi um par.


Os professores ensinam o que pensam que deveriam ensinar, os alunos deveriam ir além, aprender o que pensam que deveriam aprender. A política nos estrangula, a militância embrutece, diminui repertório. João Camillo será um sopro primaveril, se for lido, assimilado e utilizado nas novas pesquisas que surgirem, como uma abordagem teórica que prima pela excelência e por dar a César o que é de César, como ao indivíduo o que é do indivíduo, à sociedade o que dela é e a Deus o que é de Deus.

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