Arte, Guerra e Identidade

No mais estranho dos lugares

Pode parecer que estou brincando, mas gostaria de começar este texto dizendo que ele foi inspirado por algo bastante inusitado: a série “Um Maluco no Pedaço”. Calma, minha gente, eu posso explicar. Eu adorava assistir a esta série quando era mais novo, mas, como toda criança que vê sitcom americano, meu riso nem sempre era correlacionado com meu entendimento das piadas. Só muito mais tarde que fui entender certas coisas.


Em um dos episódios, não lembro exatamente qual, o incorrigível Will convence o mordomo Geoffrey, um legítimo inglês, a se fazer passar por poeta do gueto. Quando pedido para declamar um poema de improviso, Geoffrey apruma a postura, enche o peito e brada:


Cannon to right of them, (canhões à direita)

Cannon to left of them, (canhões à esquerda)

Cannon in front of them (canhões à frente)

Volley'd and thunder'd; (voleiados e trovejados)


O que pode ter passado despercebido entre as risadas dos espectadores – meu “eu juvenil” incluso – é a sutileza do que foi feito e o quão bem escolhido foi este poema. De fato, não foi algo inventado pelos produtores, mas sim um trecho escrito pelo célebre autor inglês Lorde Tennyson. E qual é o assunto do poema? Um dos maiores debacles da história militar inglesa.


Balaclava

A Guerra da Crimeia (1853-1856) foi toda estranha: é difícil explicar tanto por que ela aconteceu quanto a lógica (ou falta dela) nas táticas e estratégias empregadas. Dentre as bizarrices envolvidas, a Batalha de Balaclava, ocorrida em 25 de outubro de 1854, é particularmente notável.



Carga da Brigada Ligeira: um fracasso completo pode ser fonte de orgulho?


Balaclava foi parte de uma operação maior para tomar Sebastopol, uma importante cidade portuária e centro local, defendida pelos russos, e seria o palco de um dos maiores fracassos da história militar inglesa: a Carga da Brigada Ligeira. A tragédia foi o resultado de uma série de fatores, sobretudo humanos: um comandante geral questionável (Lorde Raglan), dois generais com birras pessoais (os cunhados Lorde Lucan e Lorde Cardigan) e um capitão com delírios de grandeza (Louis Nolan) fizeram com que 5 regimentos de cavalaria corressem de cabeça em direção à artilharia inimiga. Obviamente o resultado não foi bom: o objetivo não foi cumprido e a peripécia resultou em mais de 200 baixas, contando mortos e feridos.


E aí que entra o poema de Tennyson, cujo tema é a carga da cavalaria britânica: fazendo um giro de 180 graus, o autor transforma o fracasso vergonhoso em um símbolo de heroísmo tão tremendo que é digno de ser declamado a plenos pulmões por patriotas fervorosos, como o fictício mordomo.


Não estou argumentando sobre a necessidade de acurácia histórica nas artes. Este assunto ficará para outro texto. Meu ponto aqui é outro: podemos extrapolar o exemplo da série para pensar, de forma bem mais geral, sobre como a arte influencia a visão histórica.


A arte e a memória

Geoffrey não é “só” uma ficção: o personagem representa o cidadão inglês arquetípico, e este cidadão arquetípico conhece a própria história: não de forma exata, pois o conhecimento histórico mais preciso envolve certa dedicação, mas enquanto representação ficcional. Vivendo na Europa, digo – sem dados estatísticos, mas com base em observações pessoais – que o europeu parece ter este conhecimento dos símbolos e feitos heroicos do passado, e isto chega a ele por meio das diversas obras artísticas disponíveis, sejam elas filmes, quadros, livros, músicas, etc.


Foquemos mais um instante no exemplo inglês: o filme “Zulu”, lançado em 1964 e que mostra a Batalha de Rorke’s Drift, foi um dos maiores sucessos da história do cinema britânico e é exibido até hoje no equivalente deles da “Sessão da Tarde”. Outro exemplo: o hino patriótico “I Vow to Thee, My County” é cantado todos os anos no Remembrance Day, o feriado que homenageia os mortos da Primeira Guerra Mundial.


Em outros países, não é diferente: representações artísticas dos momentos marcantes da pátria são abundantes. Tomemos, por exemplo, o Palácio de Versalhes, ponto turístico visitado por mais de 8 milhões de pessoas por ano (pré-covid): dentro do palácio, existe a Galeria de Batalhas, que contém 35 pinturas das mais importantes e gloriosas vitórias militares francesas e 82 bustos de comandantes notáveis. Por mais cínico que seja o observador da galeria, e a tendência atual é sermos cada vez mais cínicos com relação às histórias nacionais, é impossível se manter apático ao contemplar as obras. Que importa se as vitórias retratadas não foram assim tão gloriosas ou se os comandantes esculpidos não eram assim tão notáveis? Aposto que não existe francês que, após entrar naquela sala, saia sem sentir um pingo a mais de patriotismo.



Galeria das Batalhas do Palácio de Versalhes: a memória do heroísmo francês preservada e visitada


Mais exemplos? Os alunos russos de ensino médio “leem” Guerra e Paz. Coloco entre aspas porque precisamos ser realistas: os russos mesmos admitem que os alunos, como todo bom aluno que se preze, mais enrolam do que leem. De qualquer forma, é ensinado nas escolas o grande épico sobre a Rússia, uma boa parte do qual explora a Campanha Napoleônica de 1812, com precisão histórica bastante elevada, inclusive. Os alunos conseguem entender o que foi a luta contra o invasor estrangeiro, e isso gera no imaginário sentimento de comunidade.



Lev Tolstói: veterano da Guerra da Crimeia, e autor do épico russo Guerra e Paz


Pode-se fornecer exemplos ad infinitum de obras baseadas em temas históricos. Afinal, não é como se faltasse história para tanto. A matéria-prima existe em abundância para ser utilizada pelos artistas. E é claro também que nem toda obra deste gênero precisa “elevar”. Não falo aqui do tal “pensamento crítico”, mas de representações cujo próprio teor impede que seja algo passível de orgulho. Nenhum alemão com dois neurônios pode sentir uma onda ufanista vendo um filme como “Downfall”, por exemplo.


Estes dois tipos de obra, a que louva e a que critica, podem e devem coexistir. Juntas, elas ajudam a construir na cabeça das pessoas o que foi seu passado, e, tirando a média das visões antagônicas, esta construção é feita de forma relativamente neutra. O importante não é tanto a conclusão, mas o processo: por meio destas referências em comum dos feitos históricos, que são marcadas na memória pela emoção da arte e não pela razão da descrição histórica precisa, é que se cria a noção mesma do que um povo entende por sua história. Sem isso, é difícil se situar tanto no espaço – porque você não sabe bem o que te une com as pessoas à sua volta além de uma língua comum – quanto no tempo – porque se cria a impressão de que as coisas foram surgindo de maneira difusa e esporádica, sem um fio contínuo com o passado.


E existe alguma razão para a primazia de cenas militares? Posso ser enviesado, já que a História Militar é meu campo predileto, mas diria que elas têm uma vantagem. A ideia dos ancestrais, unidos até a morte para defender a honra pátria, é algo que tende a evocar imagens e sentimentos fortes, e é pelo sentimento que gravamos as coisas, muito mais que pela razão. É por isso que mesmo derrotas até bastante patéticas, como a Carga da Brigada Ligeira, conseguem virar motivo de orgulho nas mãos de poetas habilidosos. Isto não é um elogio às guerras em si, pois só um tolo pode achar que vale a pena matar gente para conseguir umas artes bacanas, mas um pensamento de reciclagem: já que todo este sofrimento ocorreu no passado, pode-se honrar a memória dos mortos de forma digna ao mesmo tempo em que se passa algo para as gerações atuais.


E hoje? E no Brasil?

Como disse antes, parece que nos últimos tempos houve no mundo uma disparada nas interpretações de cunho mais “cínico” da história. Parece haver uma aversão a conceitos mais “nobres”, como “honra” ou “heroísmo”: argumenta-se que toda a história gira em torno de interesses escusos e opressões de classe A contra classe B.


Independentemente da veracidade (ou falta dela) nestas interpretações, isso tem um preço, pois pende a balança ideológica para um lado que nem sempre se justifica. É comum nos Estados Unidos, por exemplo, aqueles vídeos em que perguntam trivia de história para as pessoas na rua: os resultados são um pouco desanimadores, pois o público sofre para citar dois ou três presidentes e alguns apanham até para explicar o que se comemora no 4 de julho. É quase unânime entre os entrevistados, entretanto, dizer que o país tem um passado nefasto de exploração e opressão. Ora, é evidente que tais juízos de valor não foram fruto de uma reflexão profunda e ponderada, mas apenas refletem o padrão de consumo cultural dos tempos.


Mas o hoje não anula o ontem, e há uma vasta produção prévia que coloca os eventos em uma luz mais favorável. Seguindo no exemplo dos Estados Unidos, para cada “Platoon” que é lançado, jogando lama no passado (não cabe aqui a discussão se merecidamente ou não), existe um “Patton”, que tende a equilibrar a balança para o outro lado. Embora o prognóstico futuro não seja muito animador, ainda existe oposição.


E no caso do Brasil? Bom, aí temos um problema...


Existe o famoso aforismo de Hegel: “A América Latina não tem história, só geografia”. Embora maldoso, ele tem um fundo de verdade. A difusão popular da arte histórica parece não ter sido ampla por estas bandas, seja por falta de oferta ou por falta de demanda. Elaboremos.


O Exército Brasileiro comemora seu aniversário no dia 19 de abril, data em que, em 1648, ocorreu o segundo dia da Batalha dos Guararapes. No contexto da Invasão Holandesa, vários locais de diferentes origens – seja portuguesa, indígena ou africana – se juntaram para lutar contra o invasor. E quantas pessoas sabem disso, deste primeiro momento em que se criou o que pode ser chamado de uma “identidade nacional”?



"Batalha dos Gurarapes", obra de Victor Meirelles. Quantos brasileiros já viram este quadro?


Prossigamos para a Guerra do Paraguai. Espanta-me um pouco como este conflito escapou da memória dos brasileiros. Eu mesmo só fui descobrir o que foi a “Dezembrada” quando já tinha saído do ensino médio. Talvez meu exemplo seja isolado, mas duvido. A falta de representações artísticas do período, tanto em criação quanto em consumo, é um fenômeno ímpar. Poderíamos ter o nosso Guerra e Paz baseado no conflito. Poderíamos ter nossos poemas épicos, em nada perdendo para o de Lorde Tennyson e que poderiam ser declamados mesmo hoje (a frase “sigam-me os que forem brasileiros”, por exemplo, tem um potencial imenso para isso). Mas não temos nada disso.


A consciência histórica surge das referências em comum. Quanto mais exemplos temos desta, mais fácil fica de identificar aquela. O famoso Ozires Silva diz que “os brasileiros são destruidores de heróis”. No campo histórico, concordo em partes: os heróis não são nem mesmo apresentados antes de serem destruídos. Duvido que o leitor consiga encontrar alguém na rua que saiba cantar o “Hino a Caxias”.


Para não ser injusto, devo reconhecer que houve uma onda recente de produção de conteúdo, sobretudo filmes e séries, neste sentido: documentários históricos envoltos em uma aura artística bastante profissional e bem trabalhada, que estão criando novas referências para o ensino e consumo de conteúdo histórico. Mas o caminho até isto se difundir ainda é longo...


É nas artes que primeiro surge o símbolo histórico enquanto tal. Geoffrey não fez uma descrição histórica de Balaclava, mas sim declamou um poema. Cadê nossos poemas épicos sobre a FEB? Quem escreveu nosso “Guerra e Paz”? E se tivéssemos um, alguém teria lido? Mistérios misteriosos que deixo para os filósofos.


Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seu autor. As possíveis opiniões aqui emitidas não correspondem necessariamente àquelas do site.


 

Por Leonardo Mouta

Militar reservista da Força Aérea Brasileira e estudante de engenharia aeroespacial no ITA. Atualmente reside na França, onde participa de um programa de intercâmbio e dupla diplomação. Escreve sobre História militar e História da ciência/engenharia.

 

Fontes:

Revista Military History Matters, volume 115.

https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/features/untold-story-film-zulu-starring-michael-caine-50-years-9069558.html

https://www.chateauversailles.fr/decouvrir/domaine/chateau/galerie-batailles#visites-guidees

https://www.quora.com/Do-Russian-students-read-War-and-Peace-in-high-school

Why do we celebrate the 4th of July? https://www.youtube.com/watch?v=xMlXavsjbjs

https://www.fronteiras.com/artigos/por-que-o-brasil-nunca-ganhou-o-premio-nobel

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