As Relações Entre Ficção e História



O século XIX foi um período não somente de desenvolvimentos científicos e tecnológicos, mas também artísticos e intelectuais. No bojo da Belle Époque viu-se nascer os primeiros filmes que, com o tempo, ao longo do século XX, foram se complexificando e novas expressões sendo criadas: animações, seriados, quadrinhos etc. Considerando esse amplo desenvolvimento é aceitável questionarmos: de que forma essas obras se relacionam com a História enquanto disciplina? Quais finalidades podem atingir?


Bem, a princípio, é importante lembrar que as obras audiovisuais e literárias compõem parte importante para a compreensão de qualquer sociedade. Por meio delas é possível identificar parte da mentalidade corrente, dos valores morais e dos contextos social, cultural, religioso e político de determinados grupos sociais.


A literatura é um dos principais meios onde se concentra essa possibilidade: quando lemos um livro, e encontramos aspectos na história semelhantes aos de nossas vidas podemos sentir, possivelmente, identificação. E essa capacidade de nos alcançar como indivíduos (ou grupos) pelas semelhanças com a realidade, por vezes, é um de seus objetivos. Dessa forma, existem diversas obras intencionadas em passar uma mensagem, despertar um sentimento e até retratar períodos históricos e grandes acontecimentos apresentando elementos típicos de um tempo e lugar: sejam eles materiais, como nas roupas, ou imateriais como no comportamento e na linguagem. Vejamos dois exemplos disso.


Na obra As Crônicas de Nárnia, do autor irlandês C.S Lewis, encontramos uma narrativa que, numa leitura rasa, gira em torno de quatro crianças. Elas viajam para o campo, afastando-se da mãe, e ao entrar em um guarda-roupa se deparam com um novo mundo que precisa da ajuda deles. À primeira vista, a mensagem a se obter ali pode girar em torno da importância da imaginação, das possibilidades infinitas, de não contar mentiras, ser leal a família e ajudar a quem precisa tendo o “Bem” como referência (considerando o público-alvo o infanto-juvenil).


Por outro lado, sob um olhar amadurecido e mais atento é possível identificar outros detalhes e acessar novas camadas interpretativas como, por exemplo: as crianças não estavam viajando, mas fugindo, o afastamento de sua mãe era necessário e obrigatório devido ao desenvolvimento do conflito num momento em que a Inglaterra passava por sua pior fase na II Guerra Mundial. Há, então, além de entretenimento, um fundo histórico complexo. Em tempos sombrios, como os das guerras do século XX, a criatividade de Lewis, como também de Tolkien, seu amigo, traduzia, em seus escritos, a difícil realidade humana. Suas obras também serviram, posteriormente, de base para diversos outros autores e são consideradas atemporais na literatura fantástica.




Outro exemplo interessante é a da história em quadrinhos, particularmente a do caso do personagem de Steve Rogers, o Capitão América. Voluntariando-se a um experimento humano que lhe gerou condições físicas favoráveis para o serviço militar, ele tornou-se um grande soldado e também um dos super-heróis mais reconhecidos da Marvel. Uma figura popular entre os jovens até os dias atuais, e que foi criado intencionalmente na década de 1940, por dois judeus, para representar um protagonista americano que iria derrotar Adolf Hitler, vencer o nazismo na grande guerra e salvar o mundo.


A vinculação entre a criação do personagem e a II GM é evidente: no mesmo ano de lançamento da primeira edição do quadrinho, os EUA entraram no conflito após os ataques em sua base militar Pearl Harbor, no Havaí. Dessa forma, o personagem foi utilizado, como a “esperança ilustrada” para os americanos, esperança essa alcançada finalmente em 1945 quando os aliados saíram vitoriosos.



Esses exemplos tornam, assim, perceptíveis que, para muito além de meras narrativas ficcionais, a produção literária de um período agrega significados mais profundos que requerem interpretação e reflexão podendo revelar traços da realidade de um período histórico.


Há de se dizer, contudo, que estas representações, contando com licenças poéticas inerentes a sua composição, nunca servem como uma fonte primária e integral de informações sobre um contexto para o historiador. Afinal se tratam, por vezes, de breves alusões factuais dentro de uma criação artística-fictícia, cuja essencial finalidade é a emoção do seu público que, de certa maneira, os fazem relembrar das suas próprias riquezas e misérias humanas na sociedade.


Assim sendo, a cultura artística, seja na literatura ou no universo cinematográfico, quando utilizada com atenção, pode ser uma ferramenta de grande valia para estimular o interesse social e introduzir as pessoas à disciplina histórica, como seu primeiro passo. Quanto à ficção, esta se torna muito mais significativa e interessante quando se consegue articular o imaginário aos aspectos inerentes do mundo real.


Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seu autor. As possíveis opiniões aqui emitidas não correspondem necessariamente àquelas do site.

Por Samuel Santos

Estudante de Licenciatura em História pela Universidade Paulista. Escreve sobre História do Brasil, Geral e Micro-História.



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