D. Leopoldina Habsburgo-Lorena - Parte 1: família, cultura e educação

No dia 22 de janeiro de 1797, nasceu no Palácio de Hofburg, em Viena, na Áustria, Leopoldina Carolina Josefa Francisca de Habsburgo-Lorena. Filha do Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Francisco II e Maria Teresa das Duas Sicílias.


Leopoldina nasceu em uma das famílias mais tradicionais e importantes do Velho Mundo, os Habsburgo. Sua família possui expressiva ancestralidade desde a Idade Média, no século XI, cuja identidade foi sendo moldada a partir da construção do castelo “Habischtsburg” (Castelo do Falcão), na atual Suíça, pelo Conde Radbot. Posteriormente, seu neto, Otto II, adotou o nome “Von Habsburg” ao seu título nobiliárquico e, doravante, os descendentes passaram a receber o mesmo sobrenome. No ano de 1282, conforme o biógrafo Paulo Rezzutti (2017), os seus descendentes derrotaram o rei da Boêmia e anexaram o território da Áustria, assim a fortaleza de Hofburg, em Viena, tornou-se a sede mais importante do império.


O Brasão de Armas dos Habsburgo (adaptado) - Fonte: Revista de Villegagnon (2012)


Dentre as características mais notáveis desta família, destaca-se a forma como eles empregavam às suas conquistas territoriais e a influência pela Europa: a política deles consistia em estabelecer domínios, principalmente, por meio de casamentos dinásticos. Eles evitavam as batalhas em detrimento da política matrimonial, pois guerras geram enormes dispêndios econômicos e bélicos para um reino, assim, eles encontraram uma maneira eficiente de contornar uma estagnação do seu desejo de expansão: “Bella gerant alii, tu Felix Austria nube” (Deixe que outros guerreiem, você, feliz Áustria, casa-se).


Dessa forma, eles distribuíram seu sobrenome e poderio para além dos territórios germânicos e conseguiram fortalecer-se grandemente, mesmo que significasse ter de “sacrificar” alguns dos seus membros para fins de Estado. Frederico Habsburgo III foi o principal propulsor desse pensamento na família e um dos maiores exemplos da política que estabeleceu. Ele casou-se com a princesa da dinastia de Avis, D. Leonor, e o lema que fomentou as gerações seguintes da casa era simplificado por vogais: A.E.I.O.U., que em latim significa: “Austria est imperare orbi universo”; que quer dizer: “A Áustria há de imperar sobre o universo.”


Iluminação do registro manual do rei Frederico IV, Verlag Christian Brandstätter (1446)


A família de Leopoldina era grande, ela vivia com seus onze irmãos no palácio e desenvolviam diversas atividades: pintura, literatura, passeios, teatro e jardinagem. Os pais, Francisco e Maria Teresa, eram bastante cultos e preocupavam-se fortemente com a educação de seus herdeiros. Por isso estabeleceram rígida rotina de estudos e contrataram preceptores para educá-los.


Havia também a necessidade de moldá-los para lidarem com os seus súditos. Com esse fito incentivavam a educação teatral entre eles, a fim de dá-los mais desenvoltura, articulação e simpatia perante o público. Há relatos, inclusive, de que a jovem arquiduquesa e suas irmãs encenavam personagens femininas das obras clássicas de vários autores, dentre eles, Shakespeare. Ademais, influenciados pelo pai, as crianças adquiriram o hábito de cultivo e jardinagem, aprendendo a plantar, colher, reconhecer e tratar espécimes nos jardins do palácio. Pode-se considerar que a jardinagem foi uma das atividades mais importantes para o desenvolvimento de Leopoldina, considerando o tempo que passava junto à família e por despertar nela grande interesse pela natureza e seus aspectos complexos. Ademais, Leopoldina ainda se dedicou à mineralogia e ao estudo de idiomas, aprendendo, para além do alemão nativo, italiano, latim, inglês, francês e, posteriormente, português.


A educação de Leopoldina e de suas irmãs não ficou restrita a esses elementos, mas também envolveu a arte política. Esperava-se das princesas que se tornassem conselheiras para seus futuros maridos, ou, na fórmula de Rezzutti (2017), que fossem "verdadeiros artigos de luxo", segundo a perspectiva patriarcal do período.


A família imperial austríaca em 1805, por Joseph Kreutizinger


Além da educação esmerada da família, outro aspecto de sua cultura que se destaca é a forte relação que tinham com a igreja. Os Habsburgo mantiveram sua tradição religiosa presente na família desde a Idade Média. Todos os filhos eram estimulados a manterem as práticas piedosas do catolicismo e seus valores: respeito à família, aos símbolos religiosos, a prática da oração diária e caridade com os pobres.


Em 1805, a educação dos herdeiros foi interrompida com o início da guerra da terceira coligação contra a França Napoleônica. Conforme a força inimiga se aproximava de Viena, toda a família teve de se refugiar. Parte dos filhos foram para Ofen, atual Budapeste, enquanto a Imperatriz e Leopoldina seguiram para o Quartel-General em Brünn, na Morávia. Nesse mesmo ano, Napoleão venceu as forças do Sacro-Império e em dezembro foi instaurada a “Paz de Presburgo” que trouxe consigo a fundação da Liga Renana. Para Oberacker (1973), essa liga equivalia a dissolução do Sacro-Império Romano Germânico, fazendo com que o Imperador renunciasse ao título de Imperador Romano para Imperador da Áustria, como Francisco I.

Durante a fuga mencionada, a imperatriz ficou gravemente doente e veio a falecer no dia 13 de abril de 1807, não sem antes despedir-se de seus filhos e dar-lhes sua bênção. A pequena Leopoldina, então com apenas sete anos, sentiu os pesares do falecimento de sua mãe que fora uma mulher gentil, esposa dedicada e amante da arte:

Sua vida serena, comprovada até na enfermidade, sua coragem em situações difíceis, e excepcionais, sua caridade para com os pobres, que exercia até quando se via obrigada a renunciar aos próprios desejos, constituíam o exemplo que Leopoldina posteriormente iria imitar. (Oberacker, p. 16;17, 1973)

Após a morte de Maria Teresa, não tardou para que Francisco I providenciasse outro matrimônio. A posição de Imperatriz consorte deveria ser ocupada. No dia 6 de janeiro de 1808, o Imperador casou-se com sua prima, Maria Ludovica Habsburgo D’Este, uma jovem de 20 anos, que assumiu uma grande missão: assegurar a continuidade formação dos príncipes e princesas da Casa de Habsburgo e, sem que pudessem ainda saber, da futura imperatriz do Brasil.


Retrato da Imperatriz Maria Ludovica com um diadema (1787-1816), por Johann Baptist von




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Por Samuel Santos


Graduado em História pela Universidade Paulista. Escreve sobre História do Brasil, Geral e Micro-História.


 

Referências

AMBIEL, Valdirene do Carmo. O Novo Grito do Ipiranga. São Paulo – SP. Ed. Linotipo Digital, 2017.


CASSOTTI, Marsílio. A Biografia Íntima de Leopoldina: A Imperatriz que conseguiu a independência do Brasil. São Paulo – SP. Ed. Planeta, 2015.


DEL PRIORE, Mary. A Carne e o Sangue: A Imperatriz D Leopoldina, D. Pedro I e Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. Rio de Janeiro – RJ. Ed. Rocco, 2012.


IHGB, Instituto Histórico Geográfico Brasileiro. D. Pedro I e D. Leopoldina Perante a História: Vultos e Fatos da Independência. Instituto Histórico Geográfico Brasileiro: IHGB, 1972. 802 p. v. Único.


MENCK, José Theodoro Mascarenhas. D. Leopoldina Imperatriz e Maria do Brasil: Obra comemorativa dos 200 anos da vinda de D. Leopoldina para o Brasil. Brasília - Distrito Federal. Ed. Câmara dos Deputados, 2017.


OBERACKER JR., Carlos H. A Imperatriz Leopoldina: Sua Vida e Sua Época - Ensaio de Uma Biografia. Conselho Federal de Cultura e IHGB: IHGB, 1973. 493 p. v. Único.


REZZUTTI, Paulo et al. D. Leopoldina: A história não contada: A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. Ed. LeYa - São Paulo, 2017.






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