D. Maria da Glória: Da infância ao trono

No dia 4 de abril de 1819, nasceu Maria da Glória de Orléans e Bragança, filha do príncipe D. Pedro de Alcântara e D. Leopoldina Habsburgo. Ela foi batizada na capela imperial, no Rio de Janeiro, e também foi consagrada à Nossa Senhora da Glória, daí a origem de seu nome, homenagem feita por seu pai.


Miniatura da princesa recém-nascida


A pequena infanta era bastante saudável, foi descrita por alguns autores como “muito grande” para uma recém-nascida e também veio de um parto complicado. O seu nascimento, ainda que não sendo o de um varão, trouxe grandes expectativas para a corte portuguesa, já que as mulheres não eram excluídas da lei de sucessão em Portugal, dando maior certeza da continuidade da dinastia. Sendo filha do herdeiro ao trono português, recebeu o título de “Princesa da Beira”.


No que concerne à sua aparência, dizia-se na corte que ela possuía os traços da família Bragança, mas, conforme as representações artísticas, vê-se que ela era fisicamente mais parecida com a mãe e tinha as características mais comuns dos povos germânicos: o lábio superior afinado e menor que o inferior, os olhos azuis, o cabelo loiro ondulado e a pele bem branca.

Princesa Maria da Glória


Se por um lado a aparência pendia para o lado da mãe, por outro, o gênio era como o de D. Pedro. Segundo os relatos da governanta e preceptora inglesa, Maria Graham, ela era bastante enérgica, desenvolvida e inteligente, mas tinha maus hábitos para uma princesa: ela batia em seus colegas, caso eles não a obedecessem e, às vezes, respondia às broncas que lhe eram dadas. A historiadora Claudia T. Witte acrescenta que ela, desde pequena, já tinha compreensão da sua posição social e política e a usava em seu favor, por isso acabou crescendo sem muitos limites. Ainda que D. Leopoldina e Graham tentassem ponderar o comportamento da pequena infanta, a corte era condescendente com suas vontades.


A infância de D. Maria também foi marcada por grandes acontecimentos, primeiro houve a Revolução do Porto, em 1820, que formou as Cortes Portuguesas cuja principal demanda era o retorno do seu avô, o rei D. João VI, e, posteriormente, o dos seus pais à Europa. Mais tarde, em 1822, ocorreu a Proclamação da Independência e, em outubro, a Aclamação do Imperador. A partir desses eventos, a iconografia política começou a retratar a princesa com mais frequência, como na obra de Debret: ela participou do evento oficial da aclamação no dia 12 de outubro e na pintura ela está próxima da Imperatriz Leopoldina, junto ao João Maria da Gama Freitas Berquó, o futuro Marquês de Cantagalo.

Aclamação de Dom Pedro I no Campo de Sant'Ana em 1822, por Jean-Baptiste Debret


No ano de 1826, com a morte de D. João VI, deu-se início à ascensão política da princesa. O falecimento do velho monarca, sem que tivesse havido exclusão oficial de d. Pedro da sucessão, fez a coroa portuguesa recair sobre a cabeça do imperador no Brasil. Este, sendo coroado, abdicou em favor de d. Maria, prometendo a sua mão em casamento a d. Miguel, irmão de Pedro e pretendente ao trono. O plano feito era o de que seu tio exilado se tornasse regente de Portugal até que ela tivesse idade suficiente para assumir como soberana.

Abdicação de D. Pedro em nome de sua filha


No dia 29 de abril do mesmo ano, D. Pedro organizou a Carta Constitucional de Portugal, a segunda do país. A monarquia portuguesa voltava a ser constitucional, depois do golpe que d. João VI executara contra as Cortes no movimento conhecido como Viradeira. O texto constitucional era bastante semelhante ao brasileiro, abarcando, inclusive, o “Poder Moderador”. Ato contínuo, para assegurar a estabilidade do início do reinado de sua filha, e como prova de lealdade, d. Pedro também exigiu que seu irmão jurasse a Constituição e aceitasse o acordo matrimonial. D. Miguel concordou com os termos e foi posto fim ao seu exílio. Além disso, também ficou estabelecido que a princesa concluiria sua educação na Europa, na corte austríaca, sob a supervisão do avô, Francisco I. Contudo, a viagem teve de ser adiada, pois no dia 11 de dezembro de 1826, D. Leopoldina faleceu e sua morte afetou profundamente a pequena monarca.


A partida foi realizada em julho de 1828. Após a longa jornada - entre três e quatro meses de viagem - cuja escolta foi realizada por Felisberto Caldeira Brant, o Marquês de Barbacena, eles receberam a mensagem acerca da nova situação do reino: D. Miguel retornara do exílio e, em junho do mesmo ano, reunira as Cortes portuguesas, declarando nula a Carta Constitucional de 1826 e tomou para si a Coroa. Ficava claro que ele não pretendia, de fato, desposar a sobrinha ou tampouco ser o rei consorte de Portugal, mas o único e absoluto governante.

D. Miguel, o absolutista


Frente a essa situação de alto risco, Barbacena não deixou a rainha sozinha e a missão de escolta-la até a corte vienense foi encerrada pelos temores que a nova circunstância inspirava, pois, a Áustria, conforme aponta a historiadora Claudia Witte, também havia apoiado o golpe de D. Miguel e, consequentemente, tornou-se inimiga. Regressar ao Brasil, contudo, também não parecia uma opção viável imediatamente dada a falta de suprimentos e de condições necessárias para outra longa viagem. Assim, a missão decidiu partir para a Inglaterra, onde receberam cordial acolhimento do governo de George IV. Apesar da boa recepção, a tempestade política ocasionada por d. Miguel suscitava cuidados e prudência, haja vista a boa relação que a Inglaterra nutria com o velho aliado lusitano e a vontade de sustentar com o Brasil laços de benquerença.


Durante a estadia no Reino Unido, a rainha empenhou-se em aprender a língua inglesa e deu continuidade aos estudos necessários para sua formação política. Ela também interagiu e articulou com grandes figuras do país, como a princesa de Kent, futura rainha Vitória. Acabaram tornando-se amigas e trocaram cartas ao longo da vida. Além disso, d. Maria II foi recebida e prestigiada pelo Duque de Wellington e o lorde Beresford, que comandaram os exércitos portugueses sob a alçada de D. João VI, e, frente a eles, ela declarou: “Sei que vós noutro tempo salvastes meu avô; espero portanto que também agora salveis sua neta.” (BOLEO, 2014).


Após um ano na Inglaterra, a permanência da corte findou com a conquista do segundo casamento de D. Pedro I com D. Amélia de Leuchtenberg. As ordens recentes determinavam que a nova Imperatriz deveria encontrar D. Maria em Londres e virem juntas ao Brasil. Assim foi feito, aportando em território brasileiro no dia 28 de outubro de 1829.


Ficou estabelecido que a corte de D. Maria ficaria no palacete, em São Cristóvão, que antes pertencera à Marquesa de Santos, Domitila de Castro, servindo inclusive como uma “embaixada” provisória. A pequena monarca, contudo, era muito afeiçoada à família e decidiu ficar no palácio real junto deles. Assim, a Imperatriz D. Amélia aproveitou o ensejo para dar segmento à educação da enteada e dos seus irmãos. Quanto ao Imperador, ele começou a angariar e destinar fundos para criar o exército liberal em prol da causa da filha. O objetivo dele era enfrentar o irmão e confirmar a coroa sobre a cabeça de sua filha. Quando as circunstâncias políticas no Brasil alcançaram o estágio de ebulição, D. Pedro I decidiu pela abdicação para dar consecução a esse plano. Após a abdicação em 7 de abril, dirigiu-se para a Europa com sua filha Maria II.


A princípio, D. Amélia e D. Maria ficaram exiladas na França sob alçada do rei liberal, Luís Filipe I, enquanto D. Pedro viajou pela Europa até conseguir recursos suficientes para mover o exército. Posteriormente, ele partiu para o arquipélago dos Açores, onde estavam os remanescentes liberais do reino. Em 1832, teve início a Guerra Civil Portuguesa: Liberais x Absolutistas. As batalhas começaram no Porto, mas foram progredindo até alcançar a região centro-sul e a sede da monarquia, em Lisboa.

Desembarque dos liberais na cidade de Mindelo, em 1832


Em 1834, os liberais resistiram e conseguiram conquistar maior parte do território, fazendo os absolutistas se retirarem até as regiões centro-sudeste, momento crítico para eles, onde tiveram que se render: o exército liberal foi vitorioso e a causa da rainha prevaleceu. D. Pedro deu ordens para que sua filha e esposa fossem para Portugal e no dia 28 de maio ocorreu a “Convenção de Évora Monte” que declarou o fim da Guerra Civil e a expulsão permanente de D. Miguel dos territórios lusos.


Com a reconquista da coroa, o reino estava livre do absolutismo. Pouco tempo depois da vitória, contudo, D. Pedro adoeceu gravemente vindo a falecer no dia 24 de setembro de 1834, por tuberculose. Antes de sua morte, no entanto, organizara o Estado e articulara com os membros do governo para que apoiassem sua filha. Ela foi então emancipada e, aos 15 anos, assumiu o trono definitivamente: a primeira rainha constitucional da história lusitana.

D. Maria II, Rainha de Portugal



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Por Samuel Santos


Estudante de Licenciatura em História pela Universidade Paulista. Escreve sobre História do Brasil, Geral e Micro-História.

 

Referências


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BOLÉO, Luísa V. de Paiva. D. Maria II:: A Rainha Insubmissa. 5. ed. Lisboa, Portugal: A Esfera dos Livros, 2014. 368 p. v. único. ISBN 9789896265700.

CASSOTTI, Marsilio. A Biografia Íntima de Leopoldina: A Imperatriz que conseguiu a independência do Brasil. São Paulo – SP. Ed. Planeta, 2015.


DEL PRIORE, Mary. A Carne e o Sangue: A Imperatriz D Leopoldina, D. Pedro I e Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. Rio de Janeiro – RJ. Ed. Rocco, 2012.


MENCK, José Theodoro Mascarenhas. D. Leopoldina Imperatriz e Maria do Brasil: Obra comemorativa dos 200 anos da vinda de D. Leopoldina para o Brasil. Brasília - Distrito Federal. Ed. Câmara dos Deputados, 2017.


REZZUTTI, Paulo et al. D. Leopoldina: A história não contada: A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. Ed. LeYa - São Paulo, 2017.


Rainha D. Maria II – Parte I. Direção: Paulo Rezzutti. Roteiro: Claudia T. Witte. Gravação de Claudia T. Witte. YouTube: [s. n.], 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eMi1hcFOmXU. Acesso em: 24 jun. 2021.


Rainha D. Maria II - Parte II. Direção: Paulo Rezzutti. Roteiro: Claudia T. Witte. Gravação de Claudia T. Witte. YouTube: [s. n.], 2020. Disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=RALg3E0Z04g&t=681s. Acesso em: 24 jun. 2021.


Documentário D. Maria II, do Brasil Para o Trono de Portugal. Direção: Dimas Oliveira Junior. Produção: Stevan Lekitsch. Intérprete: nior. Roteiro: Carla Saddi. Gravação de Dimas Oliveira Junior. YouTube: YouTube, 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6YXJrMmwWk0&t=2496s. Acesso em: 24 jun. 2021.

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