D. Maria II de Portugal: A Educadora

D. Maria da Glória, ao longo de sua infância, vivenciou diversos percalços até conseguir ser emancipada e coroada no dia 24 de setembro de 1834, no Palácio da Ajuda. A jovem rainha nunca estivera em Portugal antes e tampouco se envolveu diretamente em questões políticas no Rio de Janeiro, tudo o que tinha era o legado do pai e uma educação sólida, frente a um país que clamava violentamente por ordem e reformas consistentes.


A vida marital da jovem rainha foi agitada. Seu casamento com d. Miguel, seu tio, foi anulado por conta da revolta que esse liderou. D. Pedro, seu pai, então, articulou seu casamento com Augusto de Leuchtenberg, irmão mais velho de d. Amélia. A corte portuguesa aceitou-o, contudo ele faleceu precocemente de angina severa sem consumar o casamento. Os códigos lusitanos não impediam que uma mulher assumisse o trono, mas era indispensável um casamento estável que gerasse herdeiros para a sucessão da coroa. Assim, em 1836, foi aprovado um novo matrimônio com o nobre germânico, D. Fernando Saxe-Coburgo-Gota.

D. Fernando Saxe-Coburgo-Gota, Rei Consorte de Portugal


Com a questão matrimonial resolvida, a rainha teve de lidar com os intensos problemas políticos do governo, sobretudo as disputas de influência e poder entre os membros da Câmara dos Deputados. Inicialmente, ela foi orientada pelos apoiadores de seu pai que lutaram na guerra liberal, porém ainda havia acaloradas discussões entre três facções acerca dos rumos do país. Os cartistas desejavam a estabilidade da Carta de 1826, enquanto os constitucionalistas queriam revigorar a Constituição de 1822. Por fim, havia o terceiro grupo que preconizava uma nova magna-carta. Assim, o desacordo entre eles trouxe grandes impasses para a estabilização do reino no espectro político.


D. Maria II, em seu reinado, teve vários ministros com diferentes posicionamentos, mas o seu braço direito era Costa Cabral, um político cartista cujas ações governamentais colidiam com os interesses das oposições e dos populares, pois eles desejavam mais participação política e menos tributações, caminho oposto ao que rumava o governo. Tais descontentamentos, por vezes, impulsionaram diversas manifestações radicais, sucessivos golpes políticos no parlamento e até uma guerra civil. Esses eventos tiveram início a partir de 1836 e duraram até 1847. Dentre eles, os mais intensos foram: o Setembrismo, a Revolta dos Marechais, Maria da Fonte e a Guerra da Patuleia.


Tropa militar rendendo um civil revoltoso na Patuleia


Frente às diversas insurreições no reino, a rainha, conforme apontou a pesquisadora Claudia Witte (2020), teve uma conduta ora maleável, ora firme. Ela estabeleceu políticas que atenderam as demandas gerais do povo e outras necessárias para o desenvolvimento de Portugal. A postura mediadora é compreendida na tentativa de acalentar as manifestações, sobretudo as setembristas, ao sancionar, ainda que a contragosto, a transição das constituições: primeiro foram restabelecidos os códigos de 1822 e, pouco depois, D. Maria II assinou outra constituição desenvolvida em 1838, contudo essa durou apenas quatro anos, e ,em 1842, a Carta de 1826 foi reinstaurada.


Por outro lado, a sua insubmissão quanto às revoltas também se mostrou presente, em especial com a repressão aplicada aos revoltosos na guerra civil chamada de “Patuleia”. A rainha requisitou o apoio dos exércitos da Quádrupla Aliança, ao qual Portugal fazia parte. Os reinos aliados, como a Espanha, França e Inglaterra, prestaram auxílio à D. Maria II e, após oito meses de conflito, a guerra foi severamente contida e a estabilidade constitucional e política foi finalmente assegurada após mais de dez anos de crises e revoltas.


Litografia satírica da Quádrupla Aliança, por Benjamin Roubaud (1834)


Sob a alçada de D. Maria II, Portugal também foi marcada por importantes avanços de cunho social, educacional e cultural. Ela percebeu que havia poucos espaços públicos de lazer e bastante resistência na interação entre as diferentes classes. Assim ela autorizou o desenvolvimento de parques e passeios, como o “Jardim da Estrela”, na tentativa de confraternizar os grupos sociais, inclusive ela frequentava esses ambientes junto aos filhos e os incentivava a brincar com as outras crianças, sem quaisquer distinções. Para a regente – conforme a sua vivência no Brasil – tal prática era comum, mas para os membros da corte e da nobreza foi uma mudança substancial que lhes serviu de exemplo, pois passaram a imitá-la. (WITTE, 2020)


D. Maria II trajando os paramentos oficiais


No que concerne à educação, essa foi a principal base das suas ações como soberana. Ela promoveu, junto aos ministros Passos Manuel, Costa Cabral e o Duque de Saldanha (em seus respectivos anos de governo), grandes reformas no reino, como na Universidade de Coimbra e na Academia Real das Ciências. Foram também criados diversos liceus, escolas politécnicas e industriais, institutos de medicina e plantio, bem como incentivo aos museus e teatros, além da reforma educacional nos primeiros graus de ensino, que ampliou o acesso à educação pública. Todos esses massivos investimentos só foram possíveis devido à política de austeridade imposta pela rainha, o zelo com o dinheiro público compôs os seus interesses enquanto soberana. (BOLÉO, 2014)


Teatro Nacional Maria II


Ademais, o rei D. Fernando foi o principal conselheiro de sua esposa e atuou energicamente no segmento cultural do país. Desde a infância, ele teve uma educação germânica esmerada e que lhe desenvolveu forte interesse e sensibilidade pelas artes e cultura: ele sabia pintar, desenhar, tocar instrumentos, cantar e tinha grande apreço por arquitetura histórica. Assim, ele aplicou vultosos investimentos (por vezes, recursos próprios) no patrimônio público de Portugal, pois esse setor, de fato, vivia em profunda carência desde o terremoto em Lisboa ocorrido em 1755. Dentre suas atividades mais notáveis temos o desenvolvimento do Mosteiro dos Jerônimos, da Torre de Belém e do Convento de Mafra.


Torre de Belém no século XIX


Quanto às relações externas, havia boa harmonia com os países europeus, sobretudo com os ingleses, cujos reis consortes eram parentes próximos, e as rainhas eram boas amigas desde a infância, inclusive influenciavam-se mutuamente em questões políticas. O relacionamento com o Brasil não foi diferente: o Imperador D. Pedro II era o irmão caçula da monarca e ela buscou manter a comunicação com ele e as irmãs por meio de cartas e despachos. Além disso, D. Maria II, segundo Witte (2020), solicitou a ele, como forma de homenagear a mãe, que enviasse sementes e espécimes do Brasil para que fossem cultivadas no reino, assim ela fez a flora brasileira ser mais conhecida em Portugal.


A respeito da vida pessoal da rainha, ela teve 11 filhos e acreditava que o seu dever era duplo: administrar o país e gerar vários herdeiros para manter a estabilidade da coroa. Contudo, as sucessivas gravidezes tornaram-lhe corpulenta (característica aparente nas iconografias) e doente: ela desenvolveu hipertensão e diabetes, mas se recusava a parar de engravidar, dizendo que morreria em “sua posição”. Quanto à educação de seus filhos, ela era muito dedicada, cuidadosa e presente, sabia separar os seus deveres de monarca e mãe, sem que um interferisse no outro. (STILWELL, 2020)


Fotografia antiga de D. Maria II


Outro aspecto relevante da vida de D. Maria II foi seu casamento que, diferentemente do de seus pais, foi feliz e próspero, os cônjuges viveram em bastante harmonia, D. Fernando ficou conhecido como “Rei artista” - devido sua atuação no setor cultural - e D. Maria II foi chamada de “Rainha Educadora”, pela sua contribuição na educação da nação lusitana.


Retrato em miniatura de D. Fernando e D. Maria II, encomendado pela rainha Vitória


No dia 15 de novembro de 1853, após horas em trabalho de parto, a rainha, cuja saúde estava bastante frágil, veio a falecer aos 34 anos junto de seu décimo primeiro filho, mantendo “sua posição”, como repetia em vida. Ela foi sepultada no Panteão dos Bragança, em Lisboa. O primogênito herdou o trono como Pedro V, mas seu pai assumiu como regente até que ele alcançasse a idade adequada, e, quando se tornou rei, conforme apontou a pesquisadora Luísa Boléo (2005), ele memorou sua finada mãe: “Minha Mãe, que aprendeu na escola da desgraça, que tinha os instintos muito superiores à sua espécie, conseguiu de nós o que há séculos não via a Casa de Bragança, que os irmãos vivessem unidos.”


D. Maria II em seu leito de morte


D. Maria da Glória de Orléans e Bragança foi compreendida na história lusitana como a segunda rainha governante e constitucional de Portugal. Para o Brasil, ainda que portuguesa, ela foi a única princesa nascida no Rio de Janeiro a ser soberana na Europa. Ela teve uma trajetória repleta de graves conflitos, mas conseguiu assegurar a coroa para seus filhos, bem como estabilizar a monarquia em quase 20 anos de governo, cabendo a ela lugar de destaque na história luso-brasileira.




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Por Samuel Santos


Estudante de Licenciatura em História pela Universidade Paulista. Escreve sobre História do Brasil, Geral e Micro-História.



Referências


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BOLÉO, Luísa V. de Paiva. D. Maria II:: A Rainha Insubmissa. 5. ed. Lisboa, Portugal: A Esfera dos Livros, 2014. 368 p. v. único. ISBN 9789896265700.

CASSOTTI, Marsilio. A Biografia Íntima de Leopoldina: A Imperatriz que conseguiu a independência do Brasil. São Paulo – SP. Ed. Planeta, 2015.


BOLÉO, Luísa V. de Paiva. D. Maria II: Menina, Mulher e Rainha. In: BOLÉO, Luísa V. de Paiva. D. Maria II: Menina, Mulher e Rainha. Website, 21 fev. 2005. Disponível em: https://www.leme.pt/biografias/m/mariaii.html. Acesso em: 7 ago. 2021.


DEL PRIORE, Mary. A Carne e o Sangue: A Imperatriz D Leopoldina, D. Pedro I e Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. Rio de Janeiro – RJ. Ed. Rocco, 2012.


MENCK, José Theodoro Mascarenhas. D. Leopoldina Imperatriz e Maria do Brasil: Obra comemorativa dos 200 anos da vinda de D. Leopoldina para o Brasil. Brasília - Distrito Federal. Ed. Câmara dos Deputados, 2017.


REZZUTTI, Paulo et al. D. Leopoldina: A história não contada: A mulher que arquitetou a Independência do Brasil. Ed. LeYa - São Paulo, 2017.


Documentário D. Maria II, do Brasil Para o Trono de Portugal. Direção: Dimas Oliveira Junior. Produção: Stevan Lekitsch. Intérprete: nior. Roteiro: Carla Saddi. Gravação de Dimas Oliveira Junior. YouTube: YouTube, 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6YXJrMmwWk0&t=2496s. Acesso em: 24 jun. 2021.

Rainha D. Maria II – Parte I. Direção: Paulo Rezzutti. Roteiro: Claudia T. Witte. Gravação de Claudia T. Witte. YouTube: [s. n.], 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eMi1hcFOmXU. Acesso em: 24 jun. 2021.

Rainha D. Maria II - Parte II. Direção: Paulo Rezzutti. Roteiro: Claudia T. Witte. Gravação de Claudia T. Witte. YouTube: [s. n.], 2020. Disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=RALg3E0Z04g&t=681s. Acesso em: 24 jun. 2021.


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