Especial de 1º de abril: 10 trapalhadas na História militar

Vivemos envoltos por visões e filosofias bastante “estruturadas” da história, dentro das quais os acontecimentos se desenrolam com precisão quase matemática. Não há espaço para eventos contingentes, apenas para eventos necessários. Um estudo mais aprofundado, entretanto, pode trazer certa noção de que estas teorias tendem a ser bastante simplistas, e que os fenômenos históricos podem se concretizar devido a todo tipo de situação, inclusive por puro azar.


Na História militar, não é diferente. Gostamos de pensar – até para ter certo senso de segurança – que todos os envolvidos no meio marcial são pessoas extremamente competentes e que têm tudo sobre controle. Ledo engano: seres humanos, mesmo quando vidas estão em jogo, falham e falham feio.


Este texto é dedicado a estas falhas. Não tratemos de erros estratégicos oriundos de cálculos equivocados, tal como Crasso em Carras ou as loucuras de Hitler no Front Russo. O objetivo aqui é ilustrar verdadeiras trapalhadas, dignas de uma revistinha do Recruta Zero.


Neste 1º de abril, vivido em tempos que testam os nervos de todos, paremos um instante para apreciar que nem sempre as coisas precisam ter um sentido ou uma deliberação profunda. Nas palavras apocrifamente atribuídas a Aristóteles: “é inverossímil que a realidade seja sempre verossímil”.


Sorria e relaxe: nem sempre as coisas na História acontecem de forma séria


10) 2º Cerco de Almeida (1811) – As ordens no bolso

Durante a Guerra Peninsular (1807-1814), 13 mil homens sob o comando geral de Arthur Wellesley, então Visconde de Wellington, cercaram 1.400 soldados franceses na cidade de Almeida, Portugal. Mesmo assim, os defensores franceses conseguiram destruir as fortificações da cidade e escapar por entre as linhas inglesas, passando por uma ponte desguarnecida. Como?


Wellington, ao saber do ocorrido, ficou lívido e achou que a culpa deveria ser imputada ao comandante do 4º Regimento, coronel Bevan, pois a unidade deveria estar guardando a ponte por onde passaram os franceses. Mas a culpa não foi dele, pois ele nunca recebeu esta ordem: o general responsável pelo cerco, Sir William Erskine, colocou-a no bolso e esqueceu do assunto. Quando Erskine se lembrou de despachar as instruções às tropas, já era tarde demais e os franceses haviam fugido.


O escape permitiu que os 1.400 soldados se juntassem ao exército principal comandado pelo marechal Masséna, que daria um bom trabalho aos ingleses e portugueses nos anos subsequentes do conflito.


9) Batalha de Karansebes (1788) – Fogo nada amigo

Esta história é um pouco apócrifa. Segundo a lenda, soldados do exército austríaco abriram fogo contra eles mesmos! O incidente ocorreu durante a Guerra Austro-Turca (1788-1791).


Obviamente, o caso envolve álcool: hussardos austríacos, durante uma missão de reconhecimento, encontraram um grupo de ciganos e compraram deles uma boa quantidade de bebida. Algum tempo depois, soldados da infantaria chegaram e pediram para participar da pândega. Os hussardos, não querendo dividir, começaram uma discussão, na qual tiros foram disparados.


Em algum momento, pensou-se que alguém gritou “turcos!”, e os soldados presentes debandaram. O episódio teve direito até a fogo de artilharia, efetuado na esperança de acertar os “turcos”. Quando a poeira baixou, os austríacos perceberam o erro: não havia nenhum turco presente e a falha de comunicação resultou em um grande incidente de fogo amigo. A cifra lendária coloca as baixas em 10 mil pessoas, mas isso é bastante absurdo. Números mais reais giram na casa de mil baixas.


Embora a história seja contestada, fogo amigo não é: um acidente semelhante e bastante grave aconteceu também durante a Guerra Civil Americana, após tropas confederadas dispararem sem querer contra o general “Stonewall” Jackson, quando este voltava de uma patrulha noturna. O general faleceu alguns dias depois e os Confederados perderam um de seus melhores estrategistas.


8) Batalha das Toninhas (1918) – É animal ou submarino?

Durante a 1ª Guerra Mundial (1914-1918), navios da Marinha do Brasil foram destacados para operações no Estreito de Gibraltar. Os nervos dos marinheiros estavam à flor da pele: navios ingleses haviam sido recentemente afundados por submarinos alemães naquela região.


Certa noite, o cruzador Bahia pensou ter avistado um periscópio, e julgou tratar-se de um ataque alemão. O navio abriu fogo para se defender. Cessados os tiros, os militares logo se deram conta do engano: eles não atacaram um submarino inimigo, mas um cardume de toninhas que estava passando por ali.


Toninha: o inimigo público número 1 da Marinha do Brasil durante a I GM


Os brasileiros não foram os únicos a atacarem animais aquáticos: um acidente semelhante aconteceu na Guerra das Malvinas (1982), quando um navio britânico abriu fogo contra algumas baleias.


7) A Batalha de Antietam (1862) – “Me dê um cigarro”

Quando soldados da União, isto é, do Norte, chegaram a um acampamento confederado abandonado, foi difícil acreditar na própria sorte: os planos de movimento das tropas inimigas, escritos pelo general Robert Lee – o grande líder inimigo -, foram encontrados envoltos em torno de três charutos descartados.


Os planos foram rapidamente levados ao comandante do Exército do Potomac, general McClellan, mas McClellan era um incompetente notório, além de ser paralisado por uma cautela excessiva: mesmo com os planos inimigos em mão, ele foi incapaz de explorar a vantagem, desperdiçando-a.


A Batalha de Antietam (1862): Falhas de inteligência brutais de ambos os lados


O embate que se seguiu a esta falha de inteligência (dos dois lados) foi a famosa Batalha de Antietam, um dos mais importantes momentos da Guerra Civil Americana (1861-1865). Embora tenha sido uma vitória magra para a União, Antietam é até hoje um dos dias mais custosos em vidas da história dos Estados Unidos. Lincoln, ao saber da falha de McClellan com uma peça tão importante de informação, ficou furioso e demitiu o general. Do outro lado, Lee ficou bastante aliviado por não ter sua reputação manchada pelo deslize com as informações.


6) A Batalha do Marne (1914) – Pega a direita na próxima

No início da 1ª Guerra Mundial, o ímpeto alemão parecia imparável e faltava pouco para o Plano Schlieffen se concretizar. Paris encontrava-se ameaçada e tanto o Exército Francês quanto a Força Expedicionária Britânica não sabiam bem como agir. Eis que, na noite de 1º de setembro de 1914, um oficial alemão, dirigindo de um quartel-general para outro, se confundiu na estrada e foi parar no meio das linhas francesas. Dentro do carro do oficial, a inteligência francesa encontrou todos os planos de disposição e de avanço do 1º Exército Alemão.


Com estas informações, foi possível armar uma defesa efetiva, o que ficou conhecido como a Batalha do Marne. Carros ajudariam as Potências Aliadas mais uma vez: mais de 2 mil taxis parisienses deslocaram soldados para o campo de batalha.


Carros tiveram um papel importante na Batalha do Marne. Na foto: um dos taxis parisienses


A vitória aliada no Marne cessou o avanço alemão, condenando o país a lutar em múltiplas frentes durante o restante da guerra. Se houvesse Waze nessa época, o resultado poderia ter sido outro.


5) A Batalha de Azincourt (1415) – Atolou

Esta batalha da Guerra dos 100 Anos (1337-1453) não foi gentil com o orgulho francês. De fato, eles tinham tudo para ganhar: seus homens estavam em vantagem de 2 para 1 em relação às tropas inglesas de Henrique V, que além de tudo estavam assoladas pela disenteria e pela fome. Mas algo deu errado: o terreno.


Os cavaleiros franceses, dispostos de forma bastante apertada, partiram a galope contra os ingleses, mas entraram em um terreno enlameado e atolaram devido ao peso das armaduras. Os soldados, mesmo a pé, também ficaram presos entre os cavalos na lama. Não tiveram nem chance: incapazes de se mover, os franceses foram dizimados pelos arqueiros ingleses.


Embora a França tenha vencido a guerra, este mico ficou eternizado para todo o sempre, graças ao trabalho do dramaturgo William Shakespeare.


4) A Batalha de Lexington e Concord (1775) – Gatilho nervoso

Nas palavras do poeta Ralph Waldo Emerson, o primeiro tiro disparado em Lexington “foi ouvido ao redor do mundo”. O ponto é: ninguém sabe quem o disparou.


Tensões entre os colonos americanos e a Grã-Bretanha estavam em alta. Como a colônia de Massachusetts era considerada o centro das revoltas, o Governador Militar da região, general Gage, despachou uma patrulha para destruir armas rebeldes e prender líderes patriotas.


As relações ainda não haviam, entretanto, degenerado em conflito armado aberto, e a patrulha inglesa, ao chegar em Lexington, tentou dialogar com a milícia americana que foi despachada para interceptá-la. Acontece que, no meio do diálogo, alguém – e até hoje não se sabe quem – disparou um tiro. Depois disso, foi o pandemônio: os dois lados partiram para a ignorância e a Batalha de Lexington e Concord começou.


Milícia de Massachusetts na Batalha de Lexington e Concord (1775). A Revolução Americana começou com um disparo acidental


Este embate inicial marca o início da Guerra da Revolução Americana, que durou até 1783 e resultou na independência dos EUA.


3) O Telegrama Zimmerman (1917) – Cuidado com o grampo

Os Estados Unidos já estavam irritados com os alemães desde o afundamento do Lusitania, mas ainda faltava um empurrão para o país entrar na 1ª Guerra Mundial. Este empurrão veio graças ao Ministro de Relações Exteriores alemão, Dr. Zimmerman. Querendo se antecipar a uma entrada americana na guerra, Zimmerman escreveu um telegrama ao México, no qual dizia que, caso o país atacasse os Estados Unidos, ele poderia recuperar os territórios do Texas, Arizona e Novo México.


Mas a inteligência britânica capturou o telegrama, decifrou-o e decidiu enviá-lo às autoridades americanas, que evidentemente ficaram um pouquinho iradas com a oferta. “Por que não oferecer Nova York e Illinois junto de uma vez?”, disse um diplomata americano. O telegrama foi publicado em 1º de março de 1917 e gerou uma onda de entusiasmo bélico no país.


Após o próprio Zimmerman confirmar a autenticidade do telegrama – pois ainda havia certa noção de cavalheirismo naquela época – não houve mais volta. Os Estados Unidos, que já haviam rompido relações diplomáticas com o Império Alemão, declararam guerra em abril de 1917. A entrada do país no conflito foi fundamental para a vitória da Entente Cordial.


2) A Crise de Berlim (1961) – “That escalated quickly”

22 de outubro de 1961: um diplomata americano chamado Allan Lightner gostaria de assistir a uma Ópera em Berlim Oriental.


28 de outubro: tanques americanos e soviéticos ficam frente a frente, prontos para começar a 3ª Guerra Mundial à primeira ordem.


Como isso aconteceu?


Lightner estava a caminho da ópera quando alguns guardas alemães decidiram mostrar serviço e pararam o carro do diplomata, que se recusou a mostrar seu passaporte. O motivo é que as autoridades americanas não reconheciam o direito alemão de guardar as fronteiras das zonas de ocupação: no caso de Berlim Oriental, este dever caberia apenas, portanto, aos soviéticos.


Não querendo deixar os Estados Unidos saírem com orgulho ferido, um dos chefes da ocupação americana, general Clay, ordenou que o próximo diplomata que desejasse cruzar as fronteiras fosse escoltado através dela por carros militares. Os alemães orientais e os soviéticos resolveram retaliar, fechando a passagem. Uma coisa levou a outra e, antes que os envolvidos se dessem conta, forças militares encontraram-se prontas para desencadear o armagedom nuclear.


Tanques americanos e soviéticos frente a frente no Checkpoint Charlie, ponto de passagem entre os dois lados de Berlim


Graças à atuação diplomática de Robert Kennedy, Procurador-Geral dos Estados Unidos, e do espião da KGB Georgi Bolshakov, foi possível apaziguar os nervos e fazer os tanques se retirarem da fronteira. Todos os países envolvidos reconheceram tacitamente que a passagem de autoridades militares e diplomáticas não deveria ser impedida. Este acordo durou até a queda do Muro, que é o próximo item na lista.


Menção Honrosa: A Queda do Muro de Berlim (1989) – “É que me escapuliu”

O Muro de Berlim tem mais uma participação na lista. No dia 9 de novembro de 1989, o porta-voz do Partido Socialista Alemão, Günther Schabowski, conduzia uma (até então) tranquila coletiva de imprensa na Alemanha Oriental.


Ao final da coletiva, Schabowski resolveu comentar sobre a nova lei de trânsito das fronteiras, causando notável choque ao dizer que não seria mais necessária a comprovação de vínculos familiares ou de necessidade urgente na expedição de vistos. Em outras palavras: os alemães do leste podiam passear nos vizinhos ocidentais quando bem entendessem. Um jornalista perguntou: “e quando esta lei entra em vigor?”. O confuso Schabowski, sem direções muito claras das autoridades comunistas, respondeu: “até onde eu sei, agora”.


Mas a lei não foi planejada para entrar em vigor “agora”. O esperado era começar a implementar as mudanças no dia seguinte, 10 de novembro. As pessoas ouvindo isso, entretanto, tomaram as palavras do porta-voz como acuradas e correram aos montes para o Muro de Berlim, onde os guardas, que não foram informados de antemão, rapidamente encontraram-se sobrecarregados e não tiveram escolha senão abrir os portões.


Um deslize do porta-voz do governo acelerou a derrubada do Muro de Berlim


Com essa passagem das pessoas, foi impossível conter a euforia da multidão. Logo, os alemães começaram a demolir aquele que foi o maior símbolo da tensão militar da Guerra Fria e da opressão do regime comunista.


Dada a estrutura do sistema montado, o motivo da queda do muro não deixa de ser bem irônico: uma informação incorreta dada por um burocrata.


1) O Assassinato de Francisco Ferdinando (1914) – Se não for de primeira...

É de conhecimento comum que o assassinato do Arquiduque Austríaco Francisco Ferdinando foi o estopim que desencadeou a 1ª Guerra Mundial, mas nem todos sabem como isto aconteceu.


No dia 28 de junho de 1914, o Arquiduque fazia uma visita a Sarajevo em um dia particularmente inconveniente, pois tratava-se do dia nacional Sérvio. Um dos espectadores da passagem do Arquiduque, Gavrilo Princip, fazia parte de um movimento separatista que tinha por objetivo a união da Bósnia com a Sérvia em uma grande nação eslava.


Princip e seus co-conspiradores planejaram um atentado à bomba contra o carro de Ferdinando, mas a bomba ricocheteou e acertou o carro seguinte da comitiva, ferindo dois oficiais austríacos. O Arquiduque saiu ileso e Princip, decepcionado, foi para um café afogar as mágoas.


Mas o nobre insistiu em continuar com a visita, apesar dos riscos de segurança, e pediu para ser levado ao hospital onde os oficiais feridos estavam sendo cuidados. Seu motorista, Franz Urban, não conhecia o caminho e acabou conduzindo o carro para uma viela estreita demais, sendo necessário engatar a marcha ré para sair da rua.


A rua era ao lado do café onde Princip estava, e o homem mal podia acreditar na sua sorte. Sacando uma pistola que portava consigo, Princip correu em direção ao carro e disparou dois tiros, que mataram o Arquiduque e sua esposa. O assassinato levou à Crise de Julho e à 1ª Guerra Mundial, concretizando as palavras proféticas do chanceler Otto von Bismarck: “a próxima grande guerra europeia acontecerá por causa de alguma estupidez nos Bálcãs”.


Arquiduque Francisco Ferdinando: vítima de “lugar errado, hora errada”


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Por Leonardo Mouta

Militar reservista da Força Aérea Brasileira e estudante de engenharia aeroespacial no ITA. Atualmente reside na França, onde participa de um programa de intercâmbio e dupla diplomação. Escreve sobre História militar e História da ciência/engenharia.


Fontes:

“Wellington: The Iron Duke”, Richard Holmes

“The American Civil War”, John Keegan

“O Brasil na Primeira Guerra Mundial: A Longa Travessia”, Carlos Daróz

“A History of War in 100 Battles”, Richard Overy

“The American Revolution: a History”, Gordon Wood

Incidente das Falkland https://www.defesaaereanaval.com.br/aviacao/ops-o-submarino-inimigo-era-uma-baleia

The mistake that toppled the Berlin Wall https://www.youtube.com/watch?v=Mn4VDwaV-oo

Crise de Berlim https://www.theguardian.com/world/2011/oct/24/berlin-crisis-standoff-checkpoint-charlie




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