Exército e Marinha na Revolução Francesa

As Guerras Revolucionárias Francesas e as Guerras Napoleônicas são um verdadeiro mistério para os historiadores e teóricos militares. Tomemos, por exemplo, a Guerra da Primeira Coligação (1792-1797): é impossível não se perguntar “como um país imerso em caos político, flagelado pela inflação, com uma população sujeita a racionamento de comida e cujo governo tem uma cifra de execuções na casa da dezena de milhar conseguiu ganhar de uma Europa inteira?”


Muitos creditam essas vitórias ao chamado “fervor revolucionário”. Segundo esta tese, o moral do soldado francês – superior ao de seus oponentes – fornecia uma vantagem decisiva nos conflitos. O caso mais emblemático provavelmente é a Batalha de Valmy (1792), transformada em um dos maiores símbolos do período. Embora o impacto real da batalha seja discutível, a lenda do general Kellerman correndo à frente das tropas com seu chapéu na ponta da espada certamente ficou cravada na mitologia que se construiu sobre o evento.


Valmy (1792): um exemplo de como o moral e o “elã” podem influenciar uma batalha


À Valmy se sucederam as vitórias em Toulon (1793), Fleurus (1794), Mantua (1796-1797), Rivoli (1797), dentre outras. Existe uma coisa em comum que liga todas estas batalhas: a quantidade de novos nomes que se destacaram. Além do famoso Bonaparte, praticamente toda a futura elite militar francesa teve participação notável no conflito. Muitos destes destaques não tinham qualquer experiência prévia de comando ou formação militar mais “acadêmica”.


Como a Revolução acabou “encurtando” a carreira dos antigos militares por conta de vínculos com a Monarquia destituída, abriu-se o espaço para novas gerações – contendo jovens estupidamente talentosos em suas fileiras – galgarem os mais altos postos da hierarquia. No exército, esta prática rendeu bons resultados, pois as Guerras Revolucionárias forneceram a oportunidade para indivíduos até então inexperientes mostrarem seus dons para a atividade bélica. Já na marinha...


Os expurgos revolucionários na Marinha Francesa – bastante significativa no cenário mundial durante os tempos da Monarquia – significaram a substituição dos velhos comandantes por homens com pouca ou nenhuma experiência de comando naval, mas que tinham afinidade ideológica com o novo regime.


Durante e após a Guerra da Primeira Coligação, a Marinha Francesa sofreu derrota seguida de derrota, incluindo Ushant (1794), Groix (1795), Nilo (1798), Tory Island (1798), dentre outras. A política do governo francês foi um tiro que saiu pela culatra: ao invés de ter efeito semelhante ao do exército, as mudanças nos quadros do almirantado garantiram que a França jamais alcançasse uma competitividade real com os ingleses pelo resto das Guerras Revolucionárias e Napoleônicas.


As mudanças nos altos escalões não foram as únicas culpadas pela decadência do serviço: a conscrição de marinheiros para suprir as fileiras do exército significou a transferência para o front terrestre de homens com vários anos de serviço no mar. Treinar novos marinheiros era uma tarefa bem mais demorada que treinar novos soldados, então o efeito destas baixas foi duramente sentido.


Batalha de Ushant (1795), conhecida como “Glorioso 1º de junho”. Embora a esquadra inglesa do almirante Howe não tenha conseguido cumprir sua missão de parar um comboio de alimentos, ficou clara a superioridade naval inglesa, pois a escolta protetora do comboio sofreu pesadas baixas


Qual é a causa de tanta disparidade? O dom do que chamamos de “genialidade” prefere a terra ao mar? Não é tão simples: o que está em jogo não é uma questão de gênio, mas de experiência. Nas palavras de Napoleão Bonaparte (que, diga-se de passagem, nunca foi um grande entendedor dos conflitos navais, mas que fornece uma visão interessante):


“O comandante-em-chefe de uma força naval e o comandante-em-chefe de uma força terrestre são homens com qualidades diferentes. Pessoas nascem com a habilidade para comandar exércitos, mas as habilidades exigidas para bem comandar esquadras só podem ser adquiridas por meio da experiência.”

Podemos até discutir se Bonaparte tem razão em dizer que as pessoas “nascem com as habilidades”, mas este mérito foge ao escopo. O cerne aqui é outro: bons almirantes, tal como bons escritores, precisam de experiência, pois marinhas são forças mais técnicas que exércitos, onde genialidade e inspiração podem resolver boa parte dos problemas. Nesse sentido, enquanto os ingleses experimentavam novas táticas e novas modificações tecnológicas, como parafusos de cobre e zinco ou canhões à pederneira, o almirantado francês ainda tinha de aprender o básico da arte naval.


As trajetórias seguidas pelas duas forças francesas alcançaram o ponto máximo de divergência em 1805: Trafalgar – a derrota acachapante para os ingleses – e Austerlitz – a vitória que decidiu a Guerra da Terceira Coligação (1803-1806) – aconteceram com apenas 42 dias de diferença.


Em cima, a Batalha de Trafalgar (1805). Depois dela, a Marinha Inglesa nunca mais viria a ser realmente ameaçada pelos franceses derrotados. Embaixo, a Batalha de Austerlitz (1805), uma vitória decisiva da Grande Armée. O paralelo entre as batalhas é representativo da competência do exército e do declínio da marinha, consequências das políticas da revolução


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Por Leonardo Mouta

Militar reservista da Força Aérea Brasileira e estudante de engenharia aeroespacial no ITA. Atualmente reside na França, onde participa de um programa de intercâmbio e dupla diplomação. Escreve sobre História militar e História da ciência/engenharia.

 

Fontes:

“Napoleon: On War”, Bruno Colson

“The French Revolution”, Christopher Hibbert

Military History Matters issue 120

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