Fatos Sobre o Republicanismo no Brasil Que Todos Deveriam Saber






O republicanismo brasileiro foi um dos componentes ideológicos da Geração 1870, que fez a crítica à tradição imperial.


Sobre esta geração muito se escreveu, principalmente tomando-a como um conjunto de grupos com ideias novas, trazidas da Europa. Segundo seus intérpretes, esta geração estaria descolada da realidade, evitando discutir os problemas concretos nacionais, mais próxima dos seus congêneres estrangeiros. Esta análise, contudo, não levava em consideração as circunstâncias políticas na qual os grupos do movimento se encontravam.


Esta percepção já foi debatida por Angela Alonso no seu Ideias em Movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-imperial. Segundo a autora, o repertório intelectual não estava dissociado da experiência social e política. Pelo contrário, era uma seleção consciente para superar a condição dos membros da geração com relação ao poder e à sociedade de corte: condição de alijamento.


O republicanismo inseriu-se nesse repertório. Foi procurado por parte do movimento a fim de contestar a forma de inserção no mundo oficial do império: o apadrinhamento. Não só ele, como também o centralismo que entendiam ser da natureza das monarquias e abafava a vida provincial. Do exposto já se vê que o movimento republicano não se apartava da experiência nacional, mas a contestava.


As principais críticas a essa geração de republicanos, como figuras desconectadas da realidade nacional, vêm de dois elementos principais: a ausência de um posicionamento claro acerca da escravidão e sua incapacidade de alcançar expressividade eleitoral. Tais afirmações, no entanto, podem ser refutadas pelos elementos a seguir.


Sendo um movimento de contestação radical da ordem vigente, o movimento republicano necessitava de apoio, particularmente entre os proprietários, muitos dos quais donos de escravos. Nesse sentido, buscou-se a contemporização com os senhores, atenuando a crítica à escravidão per se e para se manter o foco na reforma política - a implantação do federalismo, principalmente, e as reformas eleitorais.


Essa realidade ficou mais claramente exposta na convenção em que o Partido Republicano Paulista (PRP) foi fundado, em 1873. Fortemente federalista, o partido desejava uma emancipação feita de modo indenizado e realizado segundo as condições de cada província. Dessa forma, conquistava os senhores ainda detentores de escravos, não deixavam de aderir à ideia de abolição nem sacrificavam seus ideais.


É nesse sentido, por exemplo, que se entende a oposição de certos quadros republicanos a leis abolicionistas de caráter nacional, como a do Ventre Livre. Não discordavam necessariamente de seu teor, mas da forma como se daria, isto é, por ingerência do poder central. Campos Sales, por exemplo, entendia que os fazendeiros deveriam ser os agentes da emancipação, libertando seus escravos[1]. Tentou várias vezes convencê-los disso, pela palavra ou fazendo doer no bolso: apresentou projetos de criação de impostos sobre escravos que fossem vendidos no tráfico entre as províncias; defendeu a emancipação dos escravos com mais de 55 anos, sem indenização; quando foi deputado, apoiou o senador Dantas no seu projeto de emancipação dos sexagenários, também sem compensações aos senhores.


Em relação à inexpressividade eleitoral, há de se considerar a estrutura política do Império na eleição para deputados para a Assembleia Geral de modo a se compreender melhor a incapacidade dos republicanos de se fazerem eleger em grandes números. Como o apadrinhamento político era fundamental para vencer os pleitos marcados por fraudes, os republicanos somente conseguiam alcançar os votos necessários fazendo alianças políticas de conveniência - mesmo movimento para o partido de oposição ao ministério no poder.


Isto responde às questões da inexpressividade eleitoral do movimento republicano. Apesar de ter-se tornado mais popular que o parlamento, segundo Angela Alonso, nada disso se convertia em ganhos de votos. O que faz muitos autores pensarem que o republicanismo era um pária político. Mas uma estrutura eleitoral que quase impediu Joaquim Nabuco de se eleger, em 1885, mesmo sendo filho de antigo senador, participante da sociedade de corte, ou que travou as tentativas de Ruy Barbosa de voltar à Câmara depois deste mesmo ano, apesar de ser apadrinhado pelo senador Dantas, não via com bons olhos a participação dos republicanos nos seus lugares de domínio[2].


Assim, uniam-se a conservadores ou liberais para conquistar cadeiras, conforme a mudança partidária se operava no âmbito nacional. Nos lugares onde não se alcançava esse tipo de aliança, restava o ostracismo. Na própria Campinas, relevante centro republicano paulista, os partidos imperiais chegaram a se unir para barrar os republicanos numa eleição provincial, impedindo que formassem maioria. Dessa forma, a inexpressividade eleitoral de republicanos deve ser colocada em perspectiva, e não comprada em valor de face.


Essas considerações encontram-se em vasta bibliografia, já consolidada. É, portanto, estranho que muita gente continue repetindo certas opiniões facilmente refutadas pelos textos de pesquisas sobre o assunto. Talvez porque a história do republicanismo foi escrita, mas não ganhou espaço, não foi contada. Mas ela precisa ser.


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[1] A ideia era que o trabalho livre se fortalecesse contra o escravo. Eles Tentavam mostrar a superioridade do primeiro para o segundo regime de trabalho. Havia diversas propostas de imigração também, para fundar colônias. Os fazendeiros eram exortados a alforriar seus escravos sob condição de serviço por um ou dois anos. Quando houve a abolição, quase não havia escravos em Campinas para libertar, por exemplo.

[2] O próprio Antônio Prado foi severamente criticado na Câmara dos Deputados, em 1889, por uma suposta ligação com os republicanos. Na mesma sessão, o presidente do conselho de ministros, João Alfredo, foi alertado sobre o crescimento do republicanismo, mas não deu muita atenção. Acreditava que o regime estava seguro. Em novembro do mesmo ano, ocorreu o golpe militar que derrubou a monarquia e a substituiu pela república.


REFERÊNCIAS

ALONSO, Angela. Ideias em Movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-imperial. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

GALDINO, Antonio Carlos. Campinas, uma cidade republicana: política e eleições no oeste paulista (1870-1889). Tese de doutorado. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2006.

VISCARDI, Claúdia Maria Ribeiro. Unidos Perderemos. Curitiba: CRV, 2017.


Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seu autor. As possíveis opiniões aqui emitidas não correspondem necessariamente àquelas do site.


Por Dioney Pereira de Lima


Graduando em Licenciatura em História pela UEFS. Atualmente residindo na Feira de Santana. Escreve sobre Teoria da História, História Contemporânea e Política.

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