O Encilhamento

Atualizado: 23 de mar. de 2021

Dentro do processo de modernização do Estado brasileiro levado a cabo pelo Governo Provisório da República encontra-se o famoso “Encilhamento” de Rui Barbosa.

O “Encilhamento” foi uma política econômica de estímulo baseada na impressão de papel-moeda. Os decretos 164, 165 e 165-A de 17 de janeiro de 1890 estabeleceram novas práticas relacionadas às sociedades anônimas e deram permissão de emissão de moeda para bancos privados.

A ideia de Rui Barbosa era a de estabelecer um ambiente mais favorável à criação de novos negócios, vislumbrando que sua política de estímulo aceleraria o processo de industrialização nacional.

Rui Barbosa

Ministro da Fazenda do Governo Provisório


Essa concepção econômica - de fomento econômico por meio da impressão de moeda - não era estranha ao debate nacional. Já na década de 1880 discutia-se no Parlamento brasileiro se o governo deveria adotar uma tal política ou não. De um lado se posicionavam os “metalistas”, contrários à impressão de dinheiro. Alegavam que a inflação e depreciação do meio circulante não seria positivo e acarretaria em desastre financeiro uma vez que esses novos papéis não teriam base na economia real. Os “papelistas”, por sua vez, defendiam à impressão dizendo que o crédito impulsionaria novos negócios. Como consequência, a economia “real” se desenvolveria.

Durante o Império, a discussão não chegou a uma conclusão. Somente no último gabinete, o do visconde de Ouro Preto, é que se decidiu pelas medidas de estímulo. Caindo com o golpe de 15 de novembro, coube ao novo governo tomar a decisão.

Rui Barbosa então pegou o manto do último primeiro-ministro do Império e foi radical em suas medidas. A quantidade de dinheiro emitida foi gigantesca e as regras para empréstimos, facilitadas. Criou-se um ambiente de euforia econômica e muitas empresas foram abertas do dia para a noite, principalmente nas grandes cidades brasileiras.

Charge mostrando Rui Barbosa tentando equilibrar as finanças do país


O resultado da política é discutível. Na própria época, passada a euforia, veio o sentimento de frustração. A inflação cresceu rapidamente, empresas foram à falência, bancos que não receberam seus pagamentos ficaram em dificuldade. Rui Barbosa, achincalhado na imprensa acabou por pedir a saída do ministério em 1891.

Atualmente, o Encilhamento não é visto como fracasso completo. As medidas teriam criado um ambiente mais propício aos negócios e fornecido certo impulso à incipiente industrialização nacional. Nem toda empresa aberta era falsa e muitas prosperaram.

É interessante observar que os termos do debate pouco avançaram. Ainda hoje há debate entre as duas posições. Alguns defendem a impressão de moeda como forma de aquecer a economia evitando o aumento da dívida nacional - vide o caso do ex-ministro Bresser-Pereira. Outros, por sua vez, como ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, defendem uma posição mais austera, buscando uma política mais prudente que evite a inflação e a depreciação da moeda - fenômeno que atinge mais pesadamente os mais pobres. Variando entre uma e outra posição, os governos da Nova República ainda se deparam com os problemas da Velha República - quiçá do Império.

29 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

D. Maria da Glória, ao longo de sua infância, vivenciou diversos percalços até conseguir ser emancipada e coroada no dia 24 de setembro de 1834, no Palácio da Ajuda. A jovem rainha nunca estivera em P