Os Ecos de Napoleão



É natural que após o fim da Era Napoleônica os livros didáticos retornem seus olhos ao Brasil e só retornam à Europa durante a Belle Époque, com os efeitos da Segunda Revolução Industrial no Velho Mundo, deixando assim, um vácuo sobre a primeira metade do século XIX. Não é o objetivo criticar os materiais didáticos, pois é inviável, diante do tempo em sala de aula, trabalhar todos os assuntos. Por isso, exponho a seguir os reflexos do espírito do general francês.


Findado os cem dias de Napoleão em 1815 a Europa estava devastada, com uma baixa enorme de homens, entre eles, os camponeses alemães, poloneses e outros da região do Cáucaso que haviam sido recrutados para lutar no exército francês, deixando os campos agricultáveis vazios. Isso gerou uma grande crise alimentar no continente, com aumento nos preços dos grãos, cujo efeito cascata atingiu várias regiões, como a Polônia que passou pela “grande fome” entre 1816 e 1817.


Com o fim da guerra, os soldados foram desmobilizados e encontraram diante de si uma economia arrasada ao retornar para as cidades, pois elas não estavam melhores que o campo. O Bloqueio Continental imposto à Inglaterra, do qual Portugal conseguiu se evadir em 1808, deixou o império de Jorge III em apuros. Empresas quebraram e no fim de 1816 havia cerca de 20 a 30 mil ingleses desempregados, cuja massa foi engrossada por ex-combatentes sem ofício e mendigos desamparados. Em Londres, em 1819 um protesto e tumulto em Peters’s Field em Manchester resultando em cerca de 400 feridos e mais de 10 mortos. A imprensa chamou o fato de Peterloo, em alusão a Batalha de Waterloo. Essa crise social se amenizou somente no fim de 1819, quando a economia europeia caminhava para estabilização, verificada na década de 1820.


[1]


Apesar do fim de seu governo, a herança napoleônica permanecera. O Bonapartismo continuava na França como movimento político e estava presente em moedas, estatuas, músicas e na literatura como em “O Vermelho e o Negro” de Stendhal (1830). Também fora da Europa, transformado em símbolo de luta, além de ter sido deificado na China e em Madagascar[2]. Entre os admiradores de Napoleão estava Simon Bolívar (1783 – 1830), cuja influência resultou na desestabilização do poder europeu nas Américas.

O reflexo das ações do Imperador dos franceses estendeu-se, ironicamente, para as monarquias vencedoras. Exemplo claro foi o chamado “Código Napoleônico”, esforço de codificação e centralização burocrático-administrativa que inspirou reformas no século XIX. O Czar Alexandre I, por exemplo, colocou à frente dessa missão Mikhail Speransky (1772 – 1839) que ajudou a reduzir o poder da aristocracia russa e centralizar o poder do imperador na condução do país. A Prússia, por sua vez, modernizou sua burocracia e atualizou seu exército segundo o exemplo francês de mobilidade de tropas, com abastecimento e suprimento dos soldados.


Em 1815, a Europa havia se livrado de Napoleão, mas seu espírito, suas ideias e seus exemplos permaneceram, influenciando as mudanças que se seguiram e acarretando em transformações nos cem anos seguintes. Todos vislumbraram seu fantasma, para o bem ou para o mal.



Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seu autor. As possíveis opiniões aqui emitidas não correspondem necessariamente àquelas do site.


Por Thiago Vieira.

Historiador e Professor Licenciado em História.

Tem preferência pela Idade Média, História do Brasil, Séculos XIX e XX.



Referências:


EVANS, Richard. The Pursuit of Power 1815 – 1914. Penguin Books. 2016.

FREEZE, Gregory L. (org). História da Rússia. Edições 70. 2017.

OSTERHAMMEL, Jürgen. The Transformation of the World: A Global History of the Nineteenth Century. Princenton University Press. 2015.

REMOND, René. O Século XIX 1815 – 1914. Cultrix. 1976.



[1] O Massacre de Peterloo ou Britons Strike Home, “representando a carga do Manchester Yeomanry sobre a população desarmada em St. Peter's Fields, Manchester. Os yeomanry são descritos como açougueiros armados com machados que cheiram com o sangue das vítimas. ”[1] O texto diz:“ Abaixo eles! Derrube-os, meus bravos meninos: não dêem a eles trimestre que eles queiram tirar nosso Beef & Pudding de nós! —- e lembre-se de que quanto mais você mata, menos taxas pobres você terá que pagar, então vá em frente, rapazes, mostrem sua coragem e sua lealdade ” in: https://www.napoleon.org/en/history-of-the-two-empires/articles/what-was-the-reaction-in-great-britain-to-the-victory-at-waterloo/

[2] EVANS, Ricard. The Pursuit of Europe 1815 – 1914. Penguin Books. 2016



97 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo