Teoria e Prática – A Batalha da Grã-Bretanha

Buscamos conhecimento. Como diria Aristóteles, “o homem deseja saber”. Mas as informações vêm para nós de forma difusa e individual. Por isso o poder das teorias: saber articular diferentes fenômenos em um todo coeso é um sentimento acolhedor. Sem as teorias, só teríamos informações soltas. Há, entretanto, uma ressalva: teorias, mesmo as mais convincentes, não raro se mostram falhas.


Tenho formação em engenharia. Aqui, conhecemos bem esta dura realidade: lindos cálculos no papel, que fornecem resultados muito satisfatórios, se desmancham no primeiro ensaio em laboratório. Teorias no campo das exatas são extensamente testadas e contrastadas com o experimento. A física quântica, por exemplo, é o triunfo deste sobre aquela: uma teoria que não faz muito sentido, mas que foi testada ad nauseam, devendo ser, portanto, acurada.


Nas ciências humanas, este não é o caminho comum, pois (na maioria dos casos) não é possível testar uma teoria em laboratório: ou alguém pode bolar um experimento que invalide o Positivismo, por exemplo? Aqui prevalece sobretudo a argumentação, raramente chegando-se a um resultado definitivo.


Isto não é uma crítica, mas um vínculo da realidade do campo de estudos. O problema surge quando o indivíduo se esquece dessa realidade e passa a tomar estas teorias como sistemas últimos e absolutos. Se nas exatas isso já é arriscado, nas explicações dos comportamentos humanos é uma decisão absolutamente temerária.


Ideias têm consequências. Esta frase, além de ser o título de um brilhante livro de Richard Weaver, deve soar como um alarme antes de aceitarmos determinada teoria. Certamente algumas imagens vieram à cabeça do leitor, mas gostaria de ilustrar este tema com um exemplo específico: a derrota alemã na Batalha da Grã-Bretanha (julho a agosto de 1940).


A Batalha da Grã-Bretanha

Batalha da Grã-Bretanha: exemplo de preço que pode ser pago por confiar demais em teorias


Em julho de 1940, começava a Batalha da Grã-Bretanha. Neste combate, travado nos céus, a missão alemã era conseguir superioridade aérea sobre o Reino Unido, com o objetivo de fazer o país se render ou ficar vulnerável a uma invasão terrestre.


Durante um tempo, tudo levava a crer que a Luftwaffe sairia vitoriosa. A produção britânica de aviões não acompanhava as perdas, as instalações de radar não conseguiam ser consertadas a tempo e não havia pilotos suficientes para repor os que morriam em combate. A RAF estava por um fio. Eis que a estratégia alemã mudou: em vez de atacar os pontos-chave do inimigo, como os aeródromos de onde os aviões ingleses decolavam, os alemães passaram a bombardear as cidades em massa, iniciando a chamada “Blitz”.


Embora as baixas civis tenham sido terríveis, essa mudança de tática deu à RAF o tempo que ela tanto precisava para se recompor, conseguindo virar o jogo. No fim, foi o Reino Unido que saiu vitorioso da batalha, forçando Hitler a abandonar seus planos de invasão.


Mas o que motivou esta mudança de atitude dos alemães? Muitos historiadores alegam que foi uma ordem de Hitler, expedida como retaliação a bombardeios ingleses contra cidades alemãs. Outros tantos dizem que a culpa é da incompetência de Hermann Goering, comandante da Luftwaffe. Isto tudo é parte da verdade, mas não é a história inteira. O que aconteceu é que doutrina da época sobre uso de poderio aéreo incentivava o ataque contra a população civil.


Costuma-se colocar na conta de Hermann Goering, comandante da Luftwaffe, a responsabilidade pela derrota alemã contra a RAF. Embora o Reichsmarshall fosse um incompetente notório, neste caso ele estava amparado pela visão militar predominante da época


Essa doutrina era baseada nos escritos do teórico italiano Giulio Douhet, pioneiro no estudo da utilização de aviões em combate. As teses de Douhet eram canônicas em vários meios militares – incluindo a Alemanha - e argumentavam que bombardeios em massa de cidades criariam o mesmo nível de estresse visto nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), consequentemente minando o moral do país e levando-o a uma eventual rendição. Nas suas próprias palavras:


“[...] Ao atacar os centros civis mais vitais, a Força Aérea de um país A pode espalhar o terror dentro da nação e rapidamente acabar com qualquer resistência moral e material do país B”.

Deixemos os sentimentos morais de lado por um instante. Em todos os países beligerantes era aceita a ideia que atacar a população civil traria resultados estratégicos, o que parece fazer todo sentido de um ponto de vista “pragmático”. Consequentemente, pode-se até concluir que há momentos onde mais vale atacar alvos civis que alvos estratégicos militares. Aparentemente autoevidente, o novo rumo dos esforços militares, solidamente embasada nas teorias de Douhet, foi adotado prontamente por Goering e pelo resto do alto comando da Luftwaffe.


Giulio Douhet: teórico italiano cujos escritos influenciaram durante anos as forças aéreas dos mais diversos países


Só que a lógica se mostrou falha: na verdade, tudo indica que a Blitz aumentou a determinação inglesa de continuar na guerra. Mesmo assim, foi apenas com um estudo feito pela RAND Corporation em 1949 que a tese da efetividade do bombardeio das cidades foi descartada empiricamente. Sua refutação em nível teórico demorou ainda mais para vir e só foi possível com os avanços da psicologia moderna (como mostrado por Grossman e outros).


Eis que uma tese aparentemente sólida e aceita de forma quase unânime pelos “pares” custou à Alemanha uma de suas derrotas mais significativas e resultou em dezenas de milhares de inocentes mortos. Se as autoridades do Oberkommando der Luftwaffe tivessem continuado a seguir a realidade em vez de dar preferência a uma teoria, o resultado poderia ter sido outro.


Contrariamente às teorias vigentes na época, a Blitz falhou em quebrar o moral inglês


Conclusão

Nas palavras de Donald Rumsfield, Ex-Secretário de Defesa dos Estados Unidos:


"Existem desconhecidos desconhecidos – coisas que nem sabemos que não sabemos. Se alguém olha a história dos países, é esta categoria que costuma gerar problemas"

Que a experiência alemã seja um aviso para quem deseja depositar todas as fichas na teoria e se esquecer da realidade.


Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seu autor. As possíveis opiniões aqui emitidas não correspondem necessariamente àquelas do site.

 

Por Leonardo Mouta

Militar reservista da Força Aérea Brasileira e estudante de engenharia aeroespacial no ITA. Atualmente reside na França, onde participa de um programa de intercâmbio e dupla diplomação. Escreve sobre História militar e História da ciência/engenharia.

 

Fontes:

“Teoria da História: vol. 1”, José D’Assunção Barros

“The Black Swan”, Nassim Taleb

“Ideas Have Consequences”, Richard M. Weaver

“The Command of the Air”, Giulio Douhet

“The Second World War”, Martin Gilbert

“On Killing”, Tenente-Coronel Dave Grossman


40 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo