Uma fonte sobre a abdicação de Pedro I

No dia 07 de abril relembra-se a abdicação de Pedro I ao trono do Brasil. O movimento, que significou a vitória da corrente liberal sobre os partidários do poder imperial, também ficou conhecido como 'Revolução de 07 de abril' e marca uma nova fase da história política nacional. A partir daí, várias reformas foram realizadas como também vários desafios surgiram e tiveram de ser enfrentados. Tudo isso que escrevi é anódino e se encontra em qualquer lugar da internet. O que gostaria de trazer aqui é uma fonte que descreveu os eventos desse dia marcante e que traz certo sabor ao conhecimento desse fenômeno.


Trata-se da narrativa dos acontecimentos feita pelo primeiro Núncio Apostólico do período independente, Monsenhor Pietro Ostini, que foi trazida a nosso conhecimento por Hildebrando Accioly, diplomata brasileiro credenciado ao Vaticano durante a II Guerra Mundial.



Núncio Pietro Ostini. Esteve credenciado junto à Corte Brasileira de 1829 a 1831


Eis como Mons. Ostini narra os acontecimentos finais do reinado de Pedro I:


"Esse ato [a nomeação do Ministério dos Marqueses] determinou o rápido desenvolvimento da crise. Os ajuntamentos de gente armada cresceram, da manhã à noite do dia 6. A Guarda de Honra foi convidada a pernoitar em S. Cristóvão e um batalhão de linha, tendo à sua frente o brigadeiro Lima e Silva, a artilharia e o resto da tropa, marchou à volta do Campo de Santana, mostrando uma atitude equívoca [isto é, dúbia], na qual a gente não se podia fiar. A exaltação e o sobressalto chegaram ao auge, e todo o Corpo Diplomático, que desde alguns dias se julgava em grande perigo de pilhagem e de insultos, passou a noite em grande ansiedade.


Entrementes, reuniram-se no Campo de Santana os grupos de gente armada e a tropa.; começou-se a gritar em favor da volta dos ministros demitidos; e, para este efeito, foram enviadas mensagens a S. Cristóvão. O Imperador respondeu que mudaria o Ministério e formaria outro, só de brasileiros, e que daria satisfação ao povo. Esta resposta foi recebida com desprezo, pelos amotinados, aos quais insistiram pela reintegração pura e simples do Ministério demitido. O Imperador, não querendo ceder, porque -disse - a Constituição lhe dava direito de escolher os ministros a seu arbítrio, e vendo-se abandonado por Lima e todo o batalhão, exceto somente três soldados e um oficial, decidiu-se a abdicar em favor de seu filho, o que fez às três da manhã do dia 7.


Estavam presentes a esse ato os encarregados de negócios da Inglaterra e da França e os dois almirantes que o Imperador tinha mandado chamar a fim de poder embarcar-se. Embarcou-se de fato após a abdicação juntamente com a Imperatriz, a filha, D. Maria da Glória, e a marquesa de Loulé, deixando em S. Cristóvão o Príncipe e as outras três princesas.


O Imperador quis abdicar voluntariamente, para evitar o caso de a isso ser constrangido, e constantemente recusou empregar a força especialmente força estrangeira, para manter-se, protestando não querer romper a Constituição, porquanto queria acabar monarca constitucional como havia começado.


Demonstrou muita superioridade de ânimo, muita indiferença e sangue frio. Todo o Corpo Diplomático foi, durante o dia, visitá-lo a bordo; em tal ocasião, mostrou-se alegre e conversou familiarmente com todos.


Em seguida, D. Pedro II foi aclamado Imperador, com uma Regência provisória, composta dos dois Senadores marquês de Caravelas e Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e do general Francisco de Lima e Silva."



Abdicação de Pedro I


Essa narrativa, em poucas palavras, mostra como foi dramático o fim do I Reinado. Mons. Ostini conseguiu bem resumir as circunstâncias finais do governo de Pedro I. Sente-se, pela leitura, como o Núncio nutria simpatias pelo monarca, colocando-o sob uma luz favorável.


O representante da Santa Sé ainda fez considerações sobre o período inicial da Regência e, sendo antiliberal como era, não deixou de destacar o clima de intranquilidade que tomava conta do país depois da saída do imperador, em fins do ano:


"O estado dos negócios públicos é triste e bem assustador aos olhos de quem ama o seu país. (...) Ninguém poderá hoje dissimular o estado terrível da capital: a indicação ferve nos peitos dos cidadãos todos os dias ameaçados por meia dúzia de intrigantes e miseráveis indivíduos que têm a demência de querer ditar a lei ao Império, mudar a forma de governo e colocar neles entes nulos ou desprezíveis".


A linguagem forte de Mons. Ostini não era sem razão: a Regência foi, de fato, um período de fortes turbulências para o país. A situação foi demais para o Núncio que, após insistentes pedidos à Santa Sé, obteve licença para "tratar sua saúde" na Europa em fins de 1831 e nunca mais retornou.


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Bibliografia:


ACCIOLY, Hildebrando. Primeiros Núncios no Brasil. São Paulo: Instituto Progresso Editorial, 1949.

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